Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

O passo em falso de Stephen Jay Gould

Artigo põe em causa ensaio do célebre especialista em evolução norte-americano sobre como preconceitos afectam a ciência.

Stephen Jay Gould, o famoso cientista que se distinguiu tanto pelo estudo da evolução como pela sua defesa frente aos ataques da direita fundamentalista americana, terá sido vítima dos preconceitos que ele próprio denunciou num célebre artigo na Science e num ainda mais célebre ensaio, no livro A Falsa Medida do Homem (Quasi).
Tudo isto tem a ver com um cientista do século XIX, Samuel Morton, que reuniu uma colecção única de 1000 crânios, a inteligência e o racismo. E, claro, a integridade científica.
Gould, que morreu em 2002, questionou a integridade científica de Morton, acusando-o de ter, subtilmente - inconscientemente -, manipulado as medições que fez da capacidade craniana dos homens brancos para demonstrar que estes seriam os mais inteligentes. Isto para demonstrar que a raça branca - e o seu expoente, o homem branco - era a superior. A seguir vinham os asiáticos, os índios americanos e, no fim, os africanos.
Na altura em que Morton fez as suas experiências (a década de 1830, ainda antes da publicação de A Origem das Espécies por Charles Darwin, em 1859), quem era contra a abolição da escravatura defendia que a Humanidade não era una, mas antes que cada raça tinha sido criada em momentos distintos por Deus.
Mas um artigo publicado este mês na revista científica Public Library of Science - Biology (PLOS), acaba por pôr também em causa a integridade científica de Stephen Jay Gould - não preto no branco, mas é o que se pode aferir das conclusões dos cientistas que reconstituíram as experiências de Morton e chegaram à conclusão de que ele não terá manipulado, nem inconscientemente, as suas medições da capacidade craniana, feitas com sementes de mostarda, como dizia Gould.
E, pelo contrário, encontram indícios de que Gould é que terá sido vítima dos seus preconceitos - ou desejo de demonstrar como o racismo não tem bases científicas -, o que o levou a tratar os dados de uma forma discutível. Não o acusam de fraude no artigo, mas em entrevistas dadas a propósito do seu trabalho alguns membros da equipa têm cruzado essa linha vermelha.

Artimanhas

Morton, um médico de Filadélfia, como bom cientista, tentou substituir a especulação por factos e medições, usando a sua colecção impressionante de crânios, representando todos os grupos raciais humanos. Mas, de acordo com a crítica de Gould - que foi ao mesmo tempo biólogo, paleontólogo, historiador das ciências, ensaísta e divulgador de ciência e pensador sobre a teoria da evolução -, o trabalho de Morton é exemplar para ilustrar como "artimanhas inconscientes ou mal percebidas são provavelmente endémicas na ciência, pois os cientistas são seres humanos enraizados em contextos culturais, não autómatos que se dirigem para verdades externas", escreveu na Science, em 1978.
Gould tornou-se uma figura pública com uma enorme projecção - uma espécie de Carl Sagan para a evolução, embora tivesse algumas ideias polémicas. Mas, em termos de grande público, tornou-se uma figura incontornável, nos Estados Unidos e não só. Dele esperava-se um juízo acertado.
Mas o que a equipa coordenada por Ralph Holloway diz é que Gould, que nunca foi ele próprio repetir as medições de Morton, apenas analisou as suas notas em papel, estava errado quando afirmou que Morton foi influenciado subconscientemente pelos seus preconceitos raciais (compactando as sementes de mostarda nos crânios dos homens brancos, para caberem mais). A equipa voltou a medir 308 dos 670 crânios estudados por Morton, guardados no Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia em Filadélfia, e não encontrou nenhum desvio estatístico significativo na direcção apontada por Gould. Na verdade, as únicas excepções foram sete crânios, e três deles até sobreestimavam a capacidade de três crânios egípcios. "Estes resultados tornam falsa a afirmação de que Morton mediu mal os crânios com base nos seus preconceitos", escreve a equipa na PLOS de 7 de Junho.Gould acusa ainda Morton de ter usado vários subterfúgios, como ter dividido os dados em subgrupos e ter amalgamado outras populações e não ter fornecido dados sobre isso. A equipa descobriu que Gould fez algo semelhante, relativamente aos crânios de nativos americanos: excluiu 34 de uma amostra de 144. Se forem usados os dados todos, com o método de cálculo usado por Gould, escreve a equipa, a média das dimensões cranianas da população de nativos americanos é ligeiramente menor do que usando o método de Morton.

Preconceito e resultado

"Estes elementos do trabalho de Gould são surpreendentes", disse ao jornal The New York Times Jason Lewis, da Universidade de Stanford (EUA), o principal autor do trabalho agora publicado. "Não consigo dizer se foram deliberados." No artigo, a equipa escreve: "Ironicamente, a própria análise do trabalho de Morton é provavelmente o melhor exemplo de como um preconceito influencia resultados."
Não é a primeira vez que o trabalho de Stephen Jay Gould sobre Morton é posto em causa. John S. Michael, um estudante universitário da Universidade da Pensilvânia, publicou um estudo em 1988, em que concluía que os resultados de Morton eram "razoavelmente precisos". A sua crítica não vingou: "Não é inteiramente evidente que se deva preferir as medições de um estudante às de um paleontólogo profissional", escreveu o filósofo da ciência Philip Kitcher, da Universidade de Colúmbia (Nova Iorque), recorda o New York Times.
Hoje, Philip Kitcher diz que Gould provavelmente se defenderia com brilho. "Ele não sai disto como um mau carácter, mas como alguém que comete erros." Ian Tattersall, conservador do Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, que conheceu Gould, também não duvida de que ele "teria uma resposta pronta". Mas sublinha que Stephen Jay Gould provou mesmo aquilo que queria demonstrar: que a ciência é susceptível a preconceitos inconscientes.

Por Clara Barata

Anotações de Darwin divulgadas na internet

Biodiversity Heritage Library vai dar a conhecer acervo pessoal do britânico

Um projecto que, entre outras instituições, envolve a Biblioteca da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, começou a digitalizar anotações de livros da biblioteca pessoal de Charles Darwin.
A primeira fase do trabalho foi finalizada e qualquer pessoa pode aceder pela internet os 330 livros mais “rabiscados” do naturalista britânico, através do site da Biodiversity Heritage Library .
O objectivo do projecto é mostrar o que Darwin pensava de outros autores. "Foi dada muita atenção aos seus manuscritos e correspondências, mas a sua biblioteca nunca teve a atenção que merecia", afirmou a bibliotecária Anne Jarvis, da Universidade de Cambridge.
O sistema de pesquisa do site permite que o utilizador encontre documentos por títulos ou palavras-chave, o que torna a procura muito mais facilitada.
Os mentores do projecto pretendem colocar na rede todas as páginas dos 1480 livros do acervo pessoal de Darwin, 748 dos quais contêm anotações pessoais.
Este projecto surge na sequência de outro que começou em 2008, quando a Universidade de Cambridge anunciou que digitalizaria vinte mil papéis relacionados com a vida de Darwin e os seus estudos. A universidade pretendia assim criar um banco de informações que estaria à disposição do público pela internet e que apresentaria, entre outras curiosidades, receitas da sua mulher, Emma, e cartas que revelam momentos desconhecidos da vida de Darwin.

Fonte: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=49774&op=all

Abelhas são pessimistas

Uma abelha não tem como expressar pessimismo em palavras. Não dá para ir lá e perguntar “ei, abelha, você acha que esse copo está meio cheio ou meio vazio?”. Mas em ações, pode.
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, treinou algumas a associar um cheiro específico a uma recompensa legal, doce, e outro a uma recompensa ruim, amarga. Então, para deixá-las traumatizadas, sacudiram as colméias onde metade delas estava, simulando o ataque de um predador.
A ideia era observar se, assim como uma pessoa que sofre de depressão, as abelhas sacudidas encarariam um novo estímulo, neutro e ambíguo, como positivo ou negativo.
De fato, elas continuaram se interessando pelo primeiro cheiro, mesmo após sofrerem o suposto ataque. Mas, quando exposta ao novo aroma, desconhecido, a maioria delas ficou relutante em se aproximar. Além disso, análises posteriores feitas nos cérebros das abelhas sacudidas mostraram níveis alterados de dopamina, serotonina e octopamina, três neutransmissores potencialmente ligados à depressão.
Ou seja, elas agiram como se fossem pessimistas, e seus cérebros deram os mesmos sinais.
Segundo os cientistas, isso pode significar que as abelhas têm, em algum nível, sentimentos. É a primeira vez que um estudo descobre sinais de emoções em animais invertebrados.
Então, seja legal. Se alguma abelha aparecer por aí, não saia correndo, não bata nela com o jornal. Você pode partir o coração da pobrezinha. Vai saber.

Thiago Perin

A selva urbana

As cidades são o lar de inúmeros animais bravios

Se pedir a alguém que diga nomes de bichos citadinos, ouvirá decerto falar em cães, gatos, pombos, gaivotas e pardais. Porém, apesar de as urbes serem ambientes artificiais criados pelo homem, são inúmeros os animais selvagens que também se tornaram “urbanos”. O biólogo Jorge Nunes mostra-nos alguns dos que podemos observar nas principais cidades portuguesas. Fique de olho nos seus vizinhos bravios.
Lembro-me bem da primeira vez que visitei a capital britânica, já lá vão muitos anos, e do dia deslumbrante que passei a descobrir os recantos encantados do Museu de História Natural. Mas, curiosamente, o que recordo com maior emoção da semana passada em Inglaterra foram os passeios a pé pelos jardins e parques públicos de Londres e Oxford.
Sempre soube que havia cães, gatos e pombos nas cidades (por vezes, de tão comuns, já nem reparamos neles), mas as caminhadas pelos magníficos jardins ingleses permitiram-me descobrir, para meu grande espanto, que também aí podiam encontrar-se animais selvagens. E, evidentemente, não me refiro aos que estão confinados aos jardins zoológicos!
Foi no coração da metrópole mais populosa da União Europeia (quem diria?), com quase tantos habitantes como a nação portuguesa, que observei pela primeira vez, e sem necessidade de binóculos, corvos, gralhas, gansos selvagens, patos bravos de diferentes espécies, esquilos e chapins que vinham comer às mãos dos transeuntes, e até veados e gamos que se passeavam livremente pelos relvados, bosques e jardins. Também me falaram das raposas, que existiam (e ainda existem) aos milhares nos jardins londrinos, mas os seus hábitos nocturnos impediram-me de as lobrigar, tendo acabado por conhecê-las anos mais tarde através de um documentário da BBC.
O curioso dessas minhas deambulações urbanas é que pude observar mais bichos silvestres nos jardins públicos britânicos do que em dezenas de saídas de campo que havia feito a algumas das principais áreas protegidas portuguesas.
Após outras viagens (reais e virtuais, através de filmes e documentários) por diversos países dos cinco continentes, acabei por perceber que a experiência vivida em Londres, afinal, poderia ter acontecido em qualquer outra cidade do mundo. Em todas elas se assiste à convivência (nem sempre salutar, diga-se), entre homens e bichos bravos.
A capital portuguesa não é excepção. Também ela acolhe animais selvagens que coabitam connosco sem que, muitas vezes, nos apercebamos da sua presença. É claro que não podemos encontrar os veados e gamos de Oxford, as raposas e os esquilos de Londres, os texugos de Copenhaga, os javalis de Berlim, os lobos de Brasov (Roménia), os falcões-peregrinos de Nova Iorque, os urubus-pretos de São Paulo, os macacos Hanuman do Rajastão (Índia) ou os ursos polares de Churchill (Canadá), mas Lisboa é igualmente uma urbe selvagem, bem como todas as outras cidades e vilas portuguesas.

Cidades selvagens

O surgimento das cidades, há cerca de seis mil anos, constituiu um salto considerável na história humana, tendo contribuído para que as populações se defendessem com mais facilidade, acentuassem relações sociais, partilhassem conhecimentos, utensílios e serviços e criassem cultura e ciência, que acabaram por tornar o ser humano civilizado. Curiosamente, os animais selvagens nunca estiveram muito longe. Afinal, quem consegue resistir ao apelo citadino?
Com o passar dos séculos, as primeiras cidades, essencialmente horizontais (de pedra, madeira e adobe), foram dando lugar a gigantescas construções de betão e aço, que parecem cair em direcção ao céu como as falésias se despenham sobre o mar. Mas nem isso demoveu a bicharada, que continuou, tal como as pessoas, a responder ao apelo das grandes metrópoles, mesmo quando o verde não passava de um ténue reflexo nas desmesuradas cortinas de vidro e metal.
Sendo as cidades ambientes artificiais criados pelo homem, de certa forma para fugir às agruras do campo e ao contacto insalubre com as ameaças naturais, é curioso verificar que elas nunca foram um domínio exclusivo dos seres humanos. Inúmeros bichos tornaram-se também eles “citadinos”, ocupando a estranha selva de betão, adaptando-se e prosperando com invejável sucesso. A sua sobrepopulação, em muitos casos, acabou por transformá-los em vizinhos incómodos e verdadeiras ameaças para a segurança e a saúde públicas, sobretudo como fonte de infecções e causa de acidentes rodoviários.

Por que será que tão grande número de animais trocou a tranquilidade dos espaços naturais pela frieza das fachadas e dos recintos públicos citadinos, onde prevalecem o cimento, o metal e o vidro? Na verdade, podem apontar-se várias razões. Entre as mais evidentes, conta-se o fácil acesso à comida, em resultado dos inúmeros desperdícios humanos (lixo orgânico) que se encontram com facilidade nas áreas urbanas e periurbanas. No entanto, há outras causas menos intuitivas, mas igualmente importantes. Alguns exemplos: as condições climatéricas mais acolhedoras (as cidades são “ilhas de calor” que apresentam temperaturas geralmente mais elevadas do que as áreas circundantes); a tolerância dos seres humanos (em vez de perseguirem os animais selvagens, como é habitual no meio natural, acabam por ignorar ou consentir a sua presença nas cidades, crentes de que estas serão mais ecológicas); a ausência de predadores (o que, associado ao excesso de alimentos, faz aumentar o ritmo de procriação, acabando muitas vezes por surgir a sobrepopulação); e, pasme-se, a abundância de nichos ecológicos e abrigos disponíveis (estes vão desde ruínas e casas abandonadas a igrejas e cemitérios, telhados, varandas e terraços, além de árvores isoladas, pequenos bosques, jardins, quintais e hortas, entre outros).
A quantidade e diversidade de animais citadinos nossos vizinhos, tal como acontece nos ambientes naturais, acaba por ser directamente proporcional à variedade de habitats disponíveis em cada área metropolitana. Se, além dos jardins, existirem também pequenos bosques, hortas e quintais, rios, ribeiros e lagos, então serão imensas as aves e os mamíferos, mas também os répteis, anfíbios e insectos que aí ocorrerão, de forma permanente ou sazonal, e cuja vizinhança quase sempre ignoramos. São animais selvagens, entenda-se, que, embora coabitando com o homem, nunca alienaram a sua liberdade.

Criaturas com penas

De toda a fauna urbana, as aves destacam-se pela sua variedade e abundância. Todos nós já reparámos certamente nos pombos e nas gaivotas, verdadeiras pragas em diversas cidades, ou nos pardais e nas andorinhas, geralmente mais tolerados e acarinhados. Mas desengane-se quem pensa que esses são os únicos seres com penas a viverem nas urbes.
São tantas e tão variadas as aves urbanas que em várias cidades foi necessário elaborar guias para auxiliar a sua identificação pelos ornitólogos e curiosos. Um dos mais famosos é o Guia das Aves de Lisboa, publicado em 1997 pela autarquia alfacinha. Nas páginas desse livro de bolso, pode descobrir-se que, à época, já tinham sido observadas 133 espécies dentro dos limites da cidade (35 nidificantes, 65 migradoras e 33 de ocorrência esporádica).
Alguns anos antes (1993), já se havia publicado, com a chancela da Fundação de Serralves, uma obra similar sobre as aves do Parque de Serralves, na cidade do Porto. Intitulava-se Aves de Serralves e dava a conhecer aos visitantes as 79 espécies que se podiam encontrar com facilidade nos jardins da instituição.
Na senda desses trabalhos, várias foram as associações de defesa do ambiente e autarquias que passaram a interessar-se pelo património ornitológico urbano e a elaborar publicações que permitem aos visitantes dos vários parques espalhados pelas cidades portuguesas conhecer e identificar a sua avifauna.
Com a vulgarização das tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente da internet, dos blogues e dos fóruns, muitas dessas informações passaram a estar disponíveis à distância de um simples clique. É o exemplo da avifauna lisboeta, que pode ser descoberta em Aves de Lisboa (em http://lisboa.avesdeportugal.info). Este recurso online permite conhecer as 134 espécies de aves que já foram observadas na capital, em especial as 50 mais frequentes e fáceis de encontrar, bem como alguns percursos que incluem os melhores locais para aprender e treinar conhecimentos básicos de ornitologia urbana.
Gonçalo Elias, coordenador do projecto Aves de Portugal e do portal Aves de Lisboa, afirma, peremptório, que “Lisboa é uma cidade muito rica em aves”. No entanto, dado que cada espécie tem as suas preferências quanto ao habitat, “se forem visitadas várias zonas da cidade com diferentes características [parques e jardins, faixa ribeirinha, campos baldios, Parque Florestal de Monsanto, além das áreas edificadas], há mais possibilidades de detectar um maior número de espécies”, conclui.

Espreitar os passarinhos

Mesmo sem sair das zonas edificadas, densamente povoadas e com escassa vegetação, é possível descobrir algumas aves interessantes, além dos pardais, pombos e gaivotas que são omnipresentes nos céus citadinos. Entre as mais comuns, contam-se os andorinhões. Segundo Gonçalo Elias, “em Lisboa nidificam duas espécies: o andorinhão-preto, que ocupa preferencialmente as zonas mais modernas, e o andorinhão-pálido, que é mais abundante nas zonas antigas da Baixa e do Bairro Alto; ambos nidificam nos buracos dos edifícios, por vezes sob as telhas”. O andorinhão-preto, contudo, é presença habitual em muitas outras cidades portuguesas, como Viana do Castelo, Porto, Vila Real, Bragança, Coimbra, Leiria, Guarda, Évora e Portalegre. Já o andorinhão-pálido, caracterizado pela sua coloração acastanhada, pode ver-se em Aveiro, Castelo Branco, Setúbal e Faro. Ainda nessas zonas das cidades, onde dominam as catedrais de betão, surgem amiúde nos telhados os rabirruivos-pretos, as andorinhas-dos-beirais e as andorinhas-das-chaminés, entre outras.
Por oposição às áreas edificadas, geralmente mais pobres em avifauna, os parques, jardins e espaços verdes acolhem uma vasta variedade de seres alados, sobretudo passeriformes. São vulgares as lavandiscas, os melros, os chapins, os chamarizes, os verdilhões, os pintassilgos, as felosas, as carriças, as toutinegras-de-barrete-preto, os piscos-de-peito-ruivo, os cartaxos e as trepadeiras, de um vasto rol de muitas outras.
Se essas zonas tiverem espelhos de água naturalizados, como acontece nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, ou no Parque da Cidade, no Porto, então é fácil encontrar galeirões, galinhas-de-água, patos, guinchos, gaivotas, guarda-rios, mergulhões-pequenos e garças-reais.
Nos campos baldios, também podem ver-se peneireiros (em Lisboa, nidificam desde 1995 nos respiradouros das fachadas da Torre do Tombo), águias-de-asa-redonda, fuinhas-dos-juncos, petinhas-dos-prados e garças-boieiras.
Nas áreas florestais e nos pequenos bosques, serão ainda habituais os gaios, as rolas-comuns, os estorninhos-pretos, as estrelinhas, os tentilhões, os pombos-torcazes, os pica-paus, as pegas-rabudas e as poupas. Como rapinas nocturnas, raramente vistas mas frequentemente escutadas, destacam-se os mochos-galegos e as corujas-das-torres.
As cidades ditas “ribeirinhas”, assim chamadas por serem banhadas por rios ou ribeiras, que são a larga maioria do nosso país, oferecem outro atractivo ornitológico: as aves aquáticas, além das que surgem habitualmente nos pequenos lagos existentes nos espaços verdes.
As que se localizam nas margens dos grandes estuários, como acontece com Caminha, Viana do Castelo, Porto, Aveiro, Lisboa, Setúbal e Faro, constituem mesmo verdadeiros santuá­rios ornitológicos. Entre as aves mais comuns nessas zonas húmidas, contam-se as gaivotas (são muitas e diversificadas as espécies que se “escondem” sob tão lata designação, sendo as mais vulgares o guincho e a gaivota-de-asa-escura), as andorinhas-do-mar, os corvos-marinhos, as garças-brancas-pequenas, os maçaricos-das-rochas, os pilritos, os ostraceiros e as rolas-do-mar. Na zona do Parque das Nações, em Lisboa, surgem, ocasionalmente, flamingos e colhereiros e várias espécies de patos. No estuário do Douro, observam-se fuselos, gaivotões-reais, patos-pretos e piscos-de-peito-azul (que, não sendo aves aquáticas, surgem sobretudo nas grandes zonas húmidas do litoral).
Essencialmente no centro e no Sul do país, as cegonhas-brancas tornaram-se um ícone sobre as chaminés, as torres e os campanários. A sua presença faz-se notar, especialmente durante as ruidosas paradas nupciais, em Castelo Branco, Portalegre, Évora, Beja e Lagos, bem como em muitas outros burgos algarvios e alentejanos, como Barrancos, Alcácer do Sal e Mértola.
Mas não se pense que os passeios ornitológicos citadinos se fazem apenas de vulgaridades, pois também surgem muitas vezes habitantes mais incomuns, como é o caso dos falcões-peregrinos, avistados frequentemente nas pontes 25 de Abril e Vasco da Gama, em Lisboa; os milhafres-pretos que nidificam na Mata do Choupal, nas proximidades de Coimbra (constituem a maior colónia desta espécie em Portugal, espalham-se pelo vale do Mondego e costumam ser presença habitual a sobrevoar a auto-estrada A1); as corujas-do-mato, comuns no Parque da Cidade de Guimarães; os gorazes, também conhecidos por garças-nocturnas, frequentes em Tomar e em alguns lagos de Lisboa; os peneireiros-das-torres, pequenos e raros falcões migradores que podem encontrar-se nas muralhas e em velhos edifícios de Castro Verde, Elvas e Mértola; e as gralhas-de-nuca-cinzenta, que ocorrem nos centros da Guarda e de Castelo Branco.
Algumas das raridades registadas em Portugal (o registo das espécies raras é homologado pelo Comité de Raridades da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves), que fazem as delícias dos ornitólogos, também têm sido avistadas em áreas urbanas ou periurbanas. É o caso da gaivota-de-bico-riscado, mencionada em Esposende, no Porto e em Peniche; do andorinhão-cafre, avistado em Serpa, Moura e Barrancos; e do ganso-grande-de-testa-branca, observado no estuário do Cávado, em Esposende.

Mamíferos furtivos

Devido à convivência pouco pacífica com os humanos que os perseguem desde há séculos, os grandes mamíferos tornaram-se esquivos e recatados, não sendo por isso presença habitual nas cidades portuguesas. Ao contrário do que acontece em muitos países europeus, por cá, não há registo de veados, javalis, texugos ou lobos a viver em estado selvagem nos parques e jardins municipais.
Restam-nos os mamíferos de médio porte, como as raposas. Mesmo essas, apenas surgem esporadicamente em regiões periurbanas ou em extensas manchas florestais como o Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa. No entanto, os seus hábitos crepusculares afastam-nas geralmente dos olhares indiscretos, tornando muito difícil a sua observação. O mesmo acontece com as genetas, as fuinhas e os toirões, que podem ocorrer de modo fortuito em zonas florestais e agrícolas suburbanas, mas que também só raramente se avistam. Apenas sabemos da sua existência pelos vestígios (pegadas, dejectos e restos alimentares) que deixam à sua passagem ou pelas tocas e locais de refúgio que constituem igualmente sinais da sua ocorrência.
Uma presença frequente em muitas ­áreas florestais urbanas, que faz habitualmente as delícias de miúdos e graúdos com os seus saltos acrobáticos nas copas das árvores, é o esquilo-vermelho. Este bonito animal, que esteve extinto em Portugal desde o século XVI, tem vindo a recolonizar naturalmente o nosso país, sendo já presença habitual em diversas cidades nortenhas. Mais a Sul, foi introduzido no Jardim Botânico de Coimbra e no Parque de Monsanto.
Geralmente mais comuns e fáceis de observar costumam ser os pequenos mamíferos insectívoros, como o ouriço-cacheiro, a toupeira e os musaranhos (como o musaranho-comum ou o musaranho-de-dentes-brancos-grande). Igualmente vulgares são os chamados “micromamíferos roedores”, que incluem o rato-das-casas, o rato-do-campo e o rato-cego, e os mamíferos herbívoros, como os coelhos. Estes são animais comuns em muitos parques e jardins das cidades portuguesas (Parque da Cidade de Guimarães, Parque da Cidade do Porto e zonas verdes lisboetas, com destaque para Monsanto), surgindo também nos bosques e nas hortas urbanas e nos terrenos baldios, onde encontram refúgio e abundância de alimento.
Em quase todas as cidades portuguesas, são ainda presença habitual os morcegos, que se descobrem principalmente à luz crepuscular do anoitecer, enquanto perseguem os insectos, sobretudo em torno dos lampiões que os atraem. Das vinte e quatro espécies existentes em Portugal, o morcego-anão é sem dúvida o mais vulgar nos céus citadinos, embora muitas outras, como o morcego-hortelão, o morcego-arborícola-grande e o morcego-rabudo também frequentem as áreas urbanas. Até o morcego-de-ferradura-grande, apesar de essencialmente cavernícola, pode ser avistado em construções humanas, sendo por exemplo uma das espécies que ocorrem em Monsanto.

Vizinhos rastejantes

A vida selvagem nem sempre está ao nível dos olhos: por vezes, é necessário olhar para o chão para a descobrir. É aí que entram em cena as cobras e os lagartos, mas também sapos, rãs e salamandras. De um modo geral, embora sejam totalmente inofensivos, as pessoas nutrem pelos anfíbios e répteis citadinos pouca ou nenhuma simpatia. Eles, porém, parecem indiferentes à secular aversão humana. E, desde que encontrem as condições ecológicas adequadas à sua actividade e ao seu ciclo de vida, não desdenham de fixar-se no meio urbano.
Os jardins, os quintais, as hortas, os muros, as casas abandonadas e arruinadas, os telhados e os locais especialmente rochosos e pedregosos, como os campos baldios, são o reino dos répteis. Estes preferem áreas secas, onde mais facilmente se expõem ao sol para regular a temperatura corporal.
Entre as espécies urbanas mais comuns, mesmo em áreas densamente povoadas, conta-se a lagartixa, também conhecida por “sardanisca”. Trata-se de um réptil insectívoro que inclui na sua dieta escaravelhos, formigas e aranhas. Além de servir de alimento aos peneireiros e a várias aves de rapina diurnas e nocturnas, também faz parte do cardápio de outros répteis que podem encontrar-se nas cidades, como o sardão (um dos mais bonitos, robustos e esquivos lacertídeos da nossa fauna) ou a cobra-de-escada (apresenta um padrão de coloração dorsal muito característico, com duas linhas escuras longitudinais), comuns em praticamente todo o país.
A cobra-rateira é outro réptil que aprendeu a conviver com o homem, encontrando-se habitualmente em ruínas, bosques e jardins citadinos. Como o nome indica, é um eficaz predador de ratos e ratazanas, prestando um inestimável serviço como “raticida ecológico”. Curiosamente, é uma das poucas serpentes venenosas existentes em Portugal (produz um forte veneno de características neurotóxicas); no entanto, não é perigosa para o homem, já que é uma espécie opistoglifa (tem os dentes inoculadores de veneno localizados na garganta).
Outras espécies que podem ser encontradas nas cidades são a lagartixa-ibérica, que ocorre principalmente no centro e no Sul do país, e o camaleão, relativamente comum em várias povoações algarvias como Faro, Tavira e Vila Real de Santo António. A lista herpeteológica citadina não ficaria completa sem as osgas, que são animais verdadeiramente antropófilos, ou seja, fortemente associados a áreas urbanas. Surgem em locais pedregosos e rochosos, troncos de árvores, muros, paredes e habitações, sendo particularmente abundantes em zonas iluminadas por candeeiros e lampiões, os quais atraem as suas presas predilectas: mosquitos, moscas e borboletas.
Nas zonas mais húmidas, podem encontrar-se os cágados e as cobras-de-água. Contudo, os lagos ou charcos e as redes hidrográficas, como rios e ribeiros, são os habitats por excelência dos anfíbios. Com forte dependência da água, sobretudo durante a época de reprodução e a fase larvar, vêem-se obrigados a viver nos locais mais húmidos e sombrios das cidades. É lá que podemos surpreender a vulgar rã-verde, o sapo-comum, a salamandra-de-pintas-amarelas e os sapos-parteiros-comuns, que surgem frequentemente nos jardins públicos do Porto e de Coimbra, segundo informação disponibilizada pelo Guia de Anfíbios e Répteis de Portugal. Aliás, de acordo com essa publicação, que poderá constituir um precioso auxiliar na observação e identificação da fauna herpeteológica urbana, os anfíbios só não são mais comuns porque “verifica-se frequentemente um excesso de nutrientes orgânicos, contaminação por produtos fitossanitários e, por vezes, elevada concentração de predadores” nos ecossistemas aquáticos das cidades.

Multidões fervilhantes

Não é por acaso que os insectos são o grupo zoológico mais abundante. Na verdade, estão por todo o lado, e as cidades não são excepção. Não nos referimos apenas às melgas e moscas ou às abelhas e vespas, mas a toda uma multidão fervilhante de artrópodes que invade as nossas casas, os quintais, os bosques e os jardins.
Embora a sua presença seja muitas vezes incómoda, a ocorrência nos espaços urbanos é de vital importância, uma vez que são geralmente os animais que estão na base das cadeias alimentares, sendo a principal fonte de alimento de muitos dos outros inquilinos citadinos, como as aves, os mamíferos, os répteis e os anfíbios. São de tal modo importantes que a saúde dos jardins e das hortas urbanas está dependente do equilíbrio que se estabelece entre vegetarianos, insectos geralmente prejudiciais, e predadores, habitualmente benéficos. Este é um mundo minúsculo que nos passa despercebido, mas, mesmo sem nos darmos conta, travam-se diariamente ferozes e implacáveis batalhas às portas das nossas casas.
Entre os insectos mais comuns, especialmente nos campos relvados e canteiros floridos, contam-se as borboletas, os escaravelhos, as abelhas, as formigas, os gafanhotos, os grilos, os percevejos, os bichos-pau, as vespas, as moscas e os louva-a-deus, só para referir alguns de uma lista interminável.
Perto da água surgem ainda as libelinhas, libélulas e efémeras. Nos dias mais quentes, embora difíceis de descortinar, devido à sua camuflagem nos troncos e ramos das árvores, as cigarras brindam-nos com os seus cantos estridentes e inconfundíveis.
Qualquer jardim que se preze tem também, com toda a certeza, milhares de aranhas. Estas distinguem-se facilmente dos insectos por possuírem quatro pares de patas e pela ausência de antenas (os insectos adultos têm usualmente três pares de patas e um par de antenas). São magníficas predadoras de insectos, que capturam normalmente com o auxílio das suas elaboradas teias. Entre as espécies mais vulgares, contam-se a aranha-dos-jardins, a aranha-de-cruz e a aranha-caranguejo.

Agruras da vida citadina

Por vezes, corremos para lugares distantes e recônditos em busca da natureza e dos animais selvagens, esquecendo que temos, afinal, inúmeros à nossa porta. No entanto, apesar de muitos terem escolhido viver nas cidades, tirando partido de todas as vantagens que o ecossistema urbano lhes oferece, não se pense que levam uma vida tranquila. Afinal, são muitos os perigos que espreitam ao virar de cada esquina: excesso de ruído, poluição atmosférica, perseguição humana, risco de atropelamentos (com consequências nefastas para animais e pessoas). Pode mesmo dizer-se que os animais nossos vizinhos partilham connosco os elevados níveis de stress e hiper­actividade que caracterizam a vida citadina, aspectos que em nada contribuem para longas esperanças de vida.
Porém, as agruras urbanas não parecem demovê-los. A maior parte veio para ficar, estando constantemente a ver como poderá tirar melhor partido dos diferentes habitats das urbes, mesmo quando escasseiam os espaços verdes e os refúgios nas edificações modernas. O exemplo mais notório é o dos peneireiros: embora estivessem habituados a fazer as suas posturas em rochedos e falésias, rapidamente descobriram que os terraços, varandas e parapeitos dos grandes edifícios urbanos são uma excelente alternativa. Indiferentes ao bulício citadino, tornaram-se uma presença habitual nos céus de várias cidades, com destaque para Lisboa, onde são relativamente comuns.
Jardins e parques públicos são hoje importantes reservatórios de vida selvagem. Além de alindarem com a sua presença a frieza arquitectónica das cidades, alguns dos bichos bravos que aí vivem contribuem, com a sua acção polinizadora (é o caso de muitos insectos, como as abelhas e borboletas), para colorir os campos e jardins. Outros, livram-nos da presença incómoda de ratos, pombos e pardais (consumidos essencialmente por aves de rapina) e insectos (aniquilados principalmente por morcegos, passeriformes, répteis e anfíbios), evitando que se tornem pragas incontroláveis. Portanto, não nos podemos esquecer de que também nas cidades as relações predador-presa, em que as diferentes populações exercem controlo umas sobre as outras, contribuem para o equilíbrio dinâmico e sustentável do ecossistema.
Com a época estival a convidar para longos e refrescantes passeios nos parques e jardins citadinos (em alguns, até já existem painéis informativos que alertam os utilizadores para a diversidade da fauna e flora aí existentes), mantenha-se atento, pois nunca se sabe quando poderá ser surpreendido por um dos muitos bichos que fazem parte da selva urbana. O melhor é ter sempre a câmara fotográfica à mão.

J.N.
SUPER 158 - Junho 2011

O mundo da água

Como quer a sua gota?

Recorrendo a câmaras de alta velocidade e alguns aditivos simples que transformam as características físicas do líquido vital, o artista alemão Markus Reugels mostra-nos um mundo diferente, através das gotas diferentes que consegue provocar e registar.
Talvez seja exagerado falar em pedrada no charco, mas a verdade é que as fotos de gotas de água tiradas por Markus Reugels, de 33 anos, nos mostram um mundo completamente novo, uma realidade alternativa apenas acessível através de alta tecnologia e muita paciência.
Markus deixa cair gotas do líquido vital sobre tabuleiros, colheres e outros utensílios com várias formas, e depois fotografa-as enquanto ressaltam e se espalham sobre a superfície líquida. Para dar cor a um espectáculo que é essencialmente transparente, acrescenta corantes alimentares à água e filtros coloridos à objectiva da câmara.
Adicionando espessantes naturais (gomas e açúcares), consegue alterar a forma dos salpicos, de forma a obter resultados bizarros, que tanto podem parecer uma cena de um filme de ficção científica ou um cogumelo nuclear. Alguns dos salpicos chegam a atingir os 15 centímetros de altura, para o que também contribui a colocação de detergente na água sobre a qual cai a gota.
Para efectuar o disparo, Markus recorre a um sensor, pois o processo é demasiado rápido para os reflexos humanos. Além disso, usa um flash ultra-rápido e um obturador capaz de operar a 1/16.000 de segundo, o que lhe permite registar em pormenor padrões que os olhos humanos nunca poderiam captar (estamos limitados a 1/25 de segundo).
Os resultados nunca são manipulados ou coloridos no computador. Para Markus, basta-lhe a beleza que obtém com um sistema tão simples: “A água pode criar formas belíssimas, mas sem a fotografia de alta velocidade nunca poderíamos vê-las. A forma dos salpicos é muito difícil de manipular. As formas básicas, como os ‘chapéus’ e os ‘discos voadores’, são fáceis, mas para criar duplos salpicos é preciso trabalhar muito, ser muito persistente e paciente. É preciso estudar os resultados e testar todas as alternativas.”
Mas não se pense que Markus vive obcecado com novas experiências: o artista de Schweinfurt, na Baviera (Alemanha), diz que “o importante é divertir-me; o resto vem por arrastamento”.

A.R.
SUPER 158 - Junho 2011

Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

A Evolução Culminou no Homem?

Contingências, catástrofes e extraterrestres

A bióloga e professora universitária Teresa Avelar acaba de publicar, na Bertrand Editora, um novo livro, A Evolução Culminou no Homem?, subtitulado Progresso, Contingências, Catástrofes e Extraterrestres. Trazemos-lhe a introdução e o primeiro capítulo, para aguçar a curiosidade.

A noção de progresso, no sentido de uma mudança direccional conduzindo a um estado que se assume ser “melhor”, influencia profundamente o pensamento contemporâneo, a ponto de se pensar frequentemente que não só existe progresso cultural e tecnológico como progresso ao nível biológico: ou seja, que a evolução tem levado os seres vivos a “progredir” ao longo do tempo. Esse progresso culmina em nós, seres humanos, que somos “evidentemente” a espécie mais “evoluída” que existe. Expressões como “animais inferiores e superiores” (os “superiores” são aqueles que são mais parecidos connosco), espécies mais ou menos “evoluídas”, linhagens “progressivas e degeneradas” são outros indicadores da crença em progresso evolutivo culminando nos humanos. Melhores do que nós só eventuais inteligências extraterrestres (visto que outros tipos de seres “superiores”, como anjos ou deuses, já não são do domínio científico). Quantas vezes vimos a nossa evolução representada como uma série de macacos cada vez mais “evoluí­dos” e verticais, até vermos um homem (é praticamente sempre um indivíduo do sexo masculino) a caminhar, de modo quase heróico, em direcção ao futuro?
De facto, é difícil ter uma ideia mais errada do que esta relativamente ao processo evolutivo. Mas a crença na existência objectiva de progresso ao nível dos fenómenos e processos biológicos é extraordinariamente persistente. Parece-nos chocante que, no século XXI, uma noção tão subjectiva e antropocêntrica não só continue a ter aceitação geral por parte de leigos, como até seja defendida por alguns cientistas. A convicção de que há progresso biológico, e que é praticamente inevitável que a evolução conduza a seres semelhantes a nós, é ilustrada pelo pressuposto de que, se ocorrer vida extraterrestre, haverá necessariamente, algures, inteligência extraterrestre, como se uma coisa implicasse automaticamente a outra. É essa ideia de progresso inevitável, “garantido” pelos processos biológicos, que vamos discutir neste livro.

Antes de Darwin

O conceito de progresso em geral é relativamente recente, uma vez que só é possível quando se admite que o mundo mudou ao longo do tempo. Os Gregos raramente consideraram essa ideia, visto que, em geral, imaginavam o mundo como sendo estático. Em relação aos seres humanos, uma ideia frequente era a de uma queda e regressão após uma “Idade do Ouro” ou uma idade heróica – por exemplo, na Ilíada, o velho Nestor contrasta o presente com a sua juventude, quando os homens eram “maiores” em todos os aspectos, e em geral Homero fala dos seus heróis como sendo “superiores” às pessoas a quem estava a contar a história. No entanto, mais tarde, vários pensadores gregos admitiram que os humanos haviam progredido: por exemplo, o autor da peça Prometeu Agrilhoado descreve o progresso cultural dos humanos desde um estado inicial miserável. Certos filósofos pré-socráticos como Protágoras e, mais tarde, o romano Lucrécio, inspirado pelo filósofo grego Epicuro (cujas obras em grande parte se perderam), referem-se ao progresso humano desde a “barbárie” até à civilização.
O cristianismo foi inicialmente ambivalente em relação ao progresso. Por um lado, baseia-se na ideia de queda e expulsão do “Jardim do Éden” e na crença em que qualquer melhoria e salvação só são possíveis pela graça de Deus e não devido a esforços humanos. Por outro lado, admite que houve progresso desde os pagãos até à instauração do cristianismo e projecta um futuro paradisíaco (e.g., Santo Agostinho, na Cidade de Deus, século V). Além disso, ao introduzir a noção de que o mundo (e não apenas os seres humanos) tem uma história mais ou menos linear, ou seja, que se alterou desde a Criação e que se modificará até chegar ao Juízo Final, contribuiu para preparar o terreno relativamente à possibilidade de progresso secular em geral.
A convicção generalizada relativamente ao progresso humano só se espalhou após a Renascença. Por exemplo, em França, no século XVII, teve lugar a famosa Querela entre Antigos e Modernos, em que os partidários dos Antigos (e.g., Boileau e, em Inglaterra, Jonathan Swift) defendiam que nada se tinha produzido que chegasse à altura da Antiguidade clássica e os partidários dos Modernos afirmavam, pelo contrário, que os modernos eram superiores porque podiam construir sobre os alicerces elaborados pelas épocas anteriores. No século XVIII, com o iluminismo, influenciado pelos triunfos científicos de Galileu e Newton, a crença num progresso cultural inevitável e cada vez maior generalizou-se. O fim da Revolução Francesa abalou um pouco este optimismo, mas não o conseguiu eliminar. Por exemplo, o reverendo Thomas Malthus (1766–1834) escreveu o seu famoso livro (Essay on the Principle of Population) em 1798 para demonstrar que a população humana tende a crescer geometricamente mas os recursos apenas crescem aritmeticamente, de onde se conclui que, a menos que as pessoas refreiem a sua actividade sexual (concebida como só sendo lícita quando se trata de procriar), haverá sempre intensa competição por recursos e muita miséria. Esta visão parecia ir contra a crença iluminista no progresso, mas para Malthus a situação fora elaborada por Deus precisamente para encorajar as pessoas a se esforçarem, trabalharem e comportarem com virtude (i.e., pouco sexo).
Durante todo o século XIX e grande parte do século XX, a fé no progresso perdurou, afirmada por filósofos como Auguste Comte, John Stuart Mill, Herbert Spencer, Karl Marx e Friedrich Engels, e vários outros. No fundo, continuamos a subscrever esta ideia de progresso inevitável da cultura humana.

Progresso e evolucionismo

As ideias evolucionistas foram influenciadas pela noção de progresso cultural humano, estendendo essa ideia e tornando possível a concepção de um progresso já não só humano e cultural, mas biológico, i.e., dos seres vivos em geral. Mais tarde, a influência foi recíproca, ou seja, o próprio evolucionismo favoreceu a crença no progresso humano.
A hipótese de evolução surgiu em parte a partir de uma modificação da concepção da Grande Cadeia dos Seres (ou Scala Naturae), uma escala linear ascendente ordenando todos os seres, do mais simples até ao mais “perfeito”. Na sua versão inicial, esta cadeia remontava a Aristóteles, e foi muito difundida na Idade Média. A cadeia era obviamente estática e, na Idade Média, incluía tudo, desde os minerais, em baixo, até aos anjos, em cima, logo abaixo de Deus, passando pelas plantas e pelos animais, e assumindo, claro, que todos coexistiam no mesmo momento, sem alteração desde a Criação. Em versões posteriores, evolutivas, como as de Erasmus Darwin (o avô de Charles Darwin) e de Lamarck, a cadeia passou não só a ter uma dimensão temporal (os seres mais simples davam origem a seres cada vez mais complexos), mas a dividir-se em duas (uma para as plantas e outra para os animais, ficando os minerais fora da biologia) e a culminar no homem em vez de nos anjos. Assim, a vida tinha uma história (não ocorrera uma Criação única e definitiva) e essa história mostraria um progresso indo dos seres mais “simples”, como as criaturas unicelulares, aos invertebrados mais “complexos”, destes aos vertebrados, e finalmente atingindo o “apogeu” no homem. Ainda hoje essa ideia perdura em expressões do tipo “da bactéria ao homem”, como se a evolução seguisse um caminho previamente traçado para chegar finalmente até nós.

O progresso para todo o sempre

Erasmus Darwin (1731–1802), médico bem-sucedido e avô paterno de Charles Darwin, foi o primeiro autor a propor uma teoria evolutiva, quer num tratado em prosa, Zoonomia (1794, e reeditado pelo autor em 1801), quer, de modo ainda mais explícito, em verso, no livro póstumo The Temple of Nature (“O Templo da Natureza”, 1803). A evolução e o progresso estavam indissoluvelmente associados para Erasmus Darwin. A vida teve uma origem única (uma entidade microscópica inicial, microscopic ens) e desenvolveu-se, passando por fases sucessivamente mais aperfeiçoadas, até culminar, até ao momento, no homem, e, eventualmente (no futuro), em formas ainda mais perfeitas, visto que o processo de aperfeiçoamento continua a operar e continuará para todo o sempre (FOR EVER AND EVER, como escreveu Erasmus, com maiúsculas). O mecanismo desta mudança não era claro, mas Deus estava por detrás dele: Erasmus Darwin era crente, deís­ta, como muitos autores do século XVIII, para os quais Deus ainda era o Grande Arquitecto, o Autor de todas as coisas, embora posteriormente à Criação inicial do universo tivesse essencialmente deixado de interferir (os deístas, ao contrário dos teístas, não aceitavam a existência de milagres).

A força que leva ao progresso

As especulações evolutivas de Erasmus Dar­win não foram tomadas muito a sério e assim foi Jean-Baptiste Antoine de Monet, chevalier de Lamarck (1744–1829), o primeiro autor a propor uma teoria evolutiva que teve algum efeito sobre os contemporâneos (mesmo que fosse sobretudo negativo). Lamarck ganhara credibilidade científica ao publicar obras em botânica (a primeira Flora completa de França, 1778) e depois em zoologia, em especial sobre invertebrados (termo inventado por ele), em tratados publicados em 1801 e 1815–1822, após se tornar curador dos invertebrados no Museu de História Natural de Paris (reorganizado após a Revolução Francesa). As suas ideias evolutivas estão subjacentes a várias das ­suas obras, mas foram principalmente dadas a conhecer na Philosophie Zoologique (“Filosofia Zoológica”, 1809). A sua teoria, tal como a de Erasmus Darwin, baseava-se na transformação da Scala Naturae, tornando-a dinâmica: os seres vivos mais simples (unicelulares) originam-se permanentemente por geração espontânea e depois transformam-se e aperfeiçoam-se ao longo do tempo até chegarem ao último estado da scala, que é o dos seres humanos. Lamarck foi mais claro do que Erasmus ao explicitar os mecanismos que levam os seres vivos a progredir. O primeiro mecanismo era uma “força que tende permanentemente a compor a organização” e que portanto levava os seres vivos a “melhorarem” linearmente. Mas, como os ambientes estão permanentemente a variar, outro mecanismo, a “influência das circunstâncias”, pode causar desvios relativamente à cadeia linear, produzindo ramificações, embora de menor importância. A sua capacidade permanente de mudança faz com que os organismos não se extingam, mas se transformem noutros, mais bem adaptados.Curiosamente, embora acreditasse firmemente numa tendência progressiva inerente aos seres vivos, Lamarck não aceitava claramente uma mudança direccional do mundo ao longo do tempo, visto que, para ele, haveria sempre espécies em todas as fases do “avanço”. Por essa razão, Lamarck pouco se interessou pelo registo fóssil que começava a ser conhecido na época e nunca acreditou na existência de extinção (segundo ele, as espécies aparentemente extintas cujos fósseis começavam a ser descritos ainda existiam algures na Terra). Embora a sua “força” motora nos pareça hoje milagrosa, Lamarck considerava-se um mecanicista (falava de fluidos orgânicos) e opunha-se ao “vitalismo” aristotélico. Ao contrário de Erasmus Darwin, não invocava a acção directa de Deus sobre a matéria viva.
As especulações evolutivas de Lamarck foram no entanto classificadas pelos seus contemporâneos como fazendo parte do seu lado menos científico, junto com teorias químicas já completamente ultrapassadas na época de Lavoisier e especulações meteorológicas delirantes (Lamarck estava convencido de que podia prever o clima de todo o ano e publicou almanaques com previsões para cada dia).

O regresso do iguanodonte

O inglês Charles Lyell (1797–1875) é um caso curioso, visto que foi dos poucos que, embora acreditasse no progresso humano, começou por negar não só o progresso biológico mas inclusivamente mudanças direccionais no registo fóssil. Lyell começou por ter uma formação de advogado, mas cedo se “mudou” para a geologia, a sua grande paixão. Foi o autor do famoso livro Principles of Geology: Being an Attempt to Explain the Former Changes of the Earth’s Surface by Reference to Causes now in Operation (“Os Princípios da Geologia: Uma Tentativa para Explicar as Mudanças Passadas da Superfície da Terra Invocando Causas hoje em Operação”), publicado em três volumes entre 1830 e 1833. Neste livro, Lyell defendeu a causa do que veio a chamar-se “uniformitarismo” (o nome foi inventado por um opositor), contra a ideia vigente em geologia, o “catastrofismo”. Segundo os geólogos catastrofistas, a sucessão de floras e faunas observáveis no registo fóssil explicava-se através de uma sucessão de catástrofes de magnitude superior ao que ocorria no presente e que haviam dizimado as espécies do passado. Após cada catástrofe, novas espécies surgiam (criadas directamente por Deus), substituindo as anteriores, e cada vez mais semelhantes às actuais, dado que Deus estava por assim dizer a “preparar o terreno” para a criação do homem. Lyell insinuou, como crítica, que essas “catástrofes” eram consideradas como tendo uma origem sobrenatural, o que não era necessariamente o caso: muitos “catastrofistas” apenas argumentavam que certos fenómenos como tremores de terra haviam sido mais violentos do que o que era observável no presente. Apenas a criação de novas espécies resultava da acção directa de Deus (e Lyell não se opunha a esta ideia).
No seu livro, Lyell avançou três hipóteses. Em primeiro lugar, as leis da natureza não se alteraram com o tempo: esta componente da teoria de Lyell não era controversa e era aceite por todos os contemporâneos. Em segundo lugar, a intensidade dos processos que existem no presente não se alterou com o tempo, ao contrário do que era afirmado pelos “catastrofistas”. Lyell acumulou uma impressionante quantidade de factos para apoiar a sua afirmação de que os fenómenos observáveis no presente, como o vulcanismo, os tremores de terra, a erosão pela água e pelo vento, a sedimentação, etc., são suficientes para explicar todas as observações do registo do passado. Por exemplo, no frontispício do livro, Lyell apresentou uma gravura das colunas do templo de Serápis em Pozzuoli para mostrar que se tinham mantido de pé (o que não seria possível se tivessem sofrido alterações violentas) apesar de terem sido submergidas no passado, como se demonstrava pelos vestígios de perfurações por bivalves marinhos. Esta componente da sua teoria, inicialmente controversa, acabou por conquistar a comunidade científica, dada a sua vantagem metodológica relativamente às teorias “catastrofistas”.
O terceiro elemento da teoria de Lyell era que a própria Terra não se alterou direccionalmente com o tempo. Esta sugestão parece-nos hoje (e assim pareceu aos seus contemporâneos) muito estranha, mas segundo Lyell a aparente direccionalidade do registo fóssil é um artefacto da preservação, e a Terra existe num estado global de equilíbrio, de modo que as faunas se substituem ciclicamente (daí a sua frase famosa: “o enorme iguanodonte pode reaparecer nos bosques, e o ictiossauro no mar, enquanto o pterodáctilo pode voltar a voar através de bosques de fetos gigantes”). A única excepção a este estado de equilíbrio sem alterações temporais irreversíveis é o ser humano. Nós, obviamente, surgimos uma única vez.
Dada esta ideia de que a Terra não mudou direccionalmente, mas apenas se alterou de modo cíclico, com repetições dos mesmos fenómenos, Lyell constituiu uma excepção em relação à crença contemporânea no progresso biológico. De facto, praticamente todos os cientistas admitiam que havia progresso biológico ao longo do tempo, mesmo antes de as ideias evolucionistas serem geralmente aceites. O progresso biológico podia ter ocorrido por saltos bruscos (e.g., após sucessivas catástrofes), e substituições dos seres de uma dada época por seres posteriores “superiores” (entenda-se mais perfeitos, melhores, ou seja, mais semelhantes aos humanos), mas praticamente ninguém duvidava de que ocorrera. Os processos que tinham levado a esse progresso não eram especificados, embora a ideia subjacente era que de algum modo se deviam à intervenção mais ou menos directa de Deus.
Lyell acabou por renunciar a esta parte da sua teoria uniformitarista. Em 1866 admitiu que a Terra havia de facto mudado ao longo do tempo – e que essa mudança havia, obviamente, sido progressista. Ou seja, logo que Lyell aceitou a ideia de direccionalidade, aceitou concomitantemente a ideia de progresso, como se as duas noções fossem inseparáveis. É sintomático que a “conversão” de Lyell ao progresso não foi devida à sua “conversão” às ideias evolucionistas do seu amigo Darwin (na realidade, Lyell nunca aceitou plenamente o mecanismo evolutivo proposto por Darwin, ou seja, a selecção natural), mas sim à sua admissão de que havia direccionalidade na história da Terra (e portanto já não podemos esperar que o iguanodonte ou o ictiossauro regressem...). A partir dessa admissão, o progresso biológico era automático e Lyell não o questionou.

A lei do desenvolvimento

Em 1844 surgiu em Inglaterra um livro de divulgação intitulado Vestiges of the Natural History of Creation (“Vestígios da História Natural da Criação”), delineando uma teoria evolutiva eminentemente progressista, segundo a qual leis de “desenvolvimento” (não especificadas mas semelhantes às leis que governam o desenvolvimento embrionário dos seres vivos mais complexos) estariam subjacentes à evolução dirigida (por Deus) dos seres vivos, com um objectivo final, o de produzir o homem. O último capítulo do livro é precisamente intitulado “Objectivo e condição geral da criação animada”. Nele o autor garante que “o sistema presente é apenas parte de um todo, uma etapa numa Grande Progressão, e a Compensação está garantida”. Segundo o livro, “o mundo inorgânico tem uma lei final abrangente, a GRAVITAÇÃO. O mundo orgânico, a outra grande secção de coisas terrenas, apoia-se de modo semelhante numa única lei, e esta é – DESENVOLVIMENTO”. Não fica claro se o autor dos Vestiges se considerava o Newton da biologia... O autor era na realidade um editor escocês bem-sucedido, Robert Chambers (1802–1883), que publicou Vestiges anonimamente, porque não queria arriscar a sua reputação (Vestiges só foi oficialmente assumido como sendo de Chambers na 12.ª edição, póstuma, em 1884). O livro foi atacado pela comunidade científica, em grande parte com razão porque continha inúmeras incorrecções factuais (chegando a sugerir que seres tão complexos como insectos eram produzidos por geração espontânea), embora muitas das críticas se devessem mais à sua ideia de evolução do que aos erros factuais. No entanto, essas críticas ajudaram à enorme popularidade do livro, o qual vendeu mais exemplares do que A Origem das Espécies. Mais uma vez vemos como ideias de mudança ao longo do tempo estavam indissoluvelmente associadas à ideia de progresso: i.e., essas mudanças só podiam ser concebidas como sendo no sentido de uma melhoria (entenda-se: no sentido da produção de seres cada vez mais semelhantes a nós), e o estado final (nós) estava predeterminado desde o início (tal como no caso do desenvolvimento do embrião).

A filosofia do progresso

Spencer foi o maior apologista da inevitabilidade do progresso. No seu tempo, foi considerado como um filósofo de primeira grandeza, e mais importante como pensador do que Darwin, embora tivesse sido subsequentemente esquecido a ponto de nem sequer ser referido por Bertrand Russell na sua História da Filosofia Ocidental. O próprio Darwin chamou-lhe “o maior filósofo vivo” numa carta, mas noutras cartas a outros correspondentes afirmou que Spencer o deixava sempre confuso e na sua Autobiografia (privada e escrita para os filhos) escreveu que as generalizações de Spencer, embora valiosas do ponto de vista filosófico, não lhe pareciam de qualquer utilidade científica. Thomas Henry Huxley, o grande defensor de Darwin, era amigo pessoal de Spencer, mas céptico relativamente às suas teorias ambiciosas, e disse uma vez que, para Spencer, a ideia de uma verdadeira tragédia era a de uma linda dedução destruída por um pequeno facto.
Spencer foi um defensor precoce da evolução, tendo sido influenciado pelo livro Principles of Geology de Lyell, por Lamarck (tal como Lyell o descrevera) e outros, incluindo Malthus, e provavelmente pelos Vestiges. A sua primeira publicação sobre evolução foi em 1852: The Development Hypothesis (“A Hipótese do Desenvolvimento”). Como muitos contemporâneos, Spencer usou a palavra evolução para designar quer o desenvolvimento embrionário quer as transformações evolutivas propriamente ditas. Segundo ele, a competição pelos recursos obrigaria à utilização crescente das faculdades mentais e levaria ao seu aumento durante a vida de um indivíduo. Ora isso estaria associado a uma diminuição da fertilidade, visto que a energia vital é limitada e se mais energia for investida no cérebro sobra menos para os órgãos genitais e para a fertilidade. O aumento das faculdades intelectuais durante a vida seria herdável e daria portanto origem a uma sucessão de formas cada vez mais inteligentes, culminando (obviamente) no homem inglês vitoriano. Neste, sempre de acordo com Spencer, ter-se-ia chegado perto de um equilíbrio populacional estável, porque a fertilidade teria diminuído relativamente não só aos animais como a populações humanas menos “evoluídas” e mais férteis, por exemplo os irlandeses (a grande fome da Irlanda ocorreu em 1848). Note-se que Spencer, solteiro, sem filhos e muito inteligente, seria um bom exemplo de “perfeição evolutiva”.
Em 1855, Spencer publicou uma nova obra, Principles of Psychology (“Princípios de Psicologia”), a qual, de acordo com a sua “modesta” opinião, seria colocada a par da obra de Newton, e em 1859 publicou um artigo intitulado “Progress: its law and cause” (“Progresso: a sua lei e causa”). Segundo Spencer, tudo (incluindo a física) estaria abrangido por uma vasta lei global de progresso e de desenvolvimento. Esta lei (tão abrangente como a da gravidade) consistiria numa mudança do “homogéneo” para o “heterogéneo”. Esta mudança iria desde a condensação da nebulosa homogénea inicial que originou o sistema planetário heterogéneo actual até ao aparecimento do homem. Entre os seres vivos, a progressão parecia óbvia a Spencer: os peixes seriam mais “homogéneos” do que os répteis (e.g., têm um corpo mais simples, não têm membros), que por sua vez seriam mais “homogéneos” do que as aves e os mamíferos.
Após ter proposto esta lei universal, Spencer passou o resto da sua vida a preencher os detalhes. Não mostrou muito apreço pela teoria evolutiva de Darwin, considerou a selecção natural como um mecanismo absolutamente menor e defendeu energicamente as ideias de hereditariedade das características adquiridas, as quais considerava necessárias e suficientes para o processo evolutivo.
Convém sublinhar que as ideias de Spencer só começaram a ter repercussão após a publicação de A Origem das Espécies de Darwin em 1859 – antes disso ele não convencera ninguém relativamente à ocorrência da evolução. Relativamente ao progresso, pelo menos no seu aspecto pré-evolutivo, não era necessário convencer as pessoas, dado que a existência de progresso, com os ingleses do sexo masculino no cume, era considerada evidente por quase todos. Após a publicação de A Origem das Espécies, como veremos, a ideia de progresso biológico, com os seres humanos no cume, foi praticamente imediata.

N.R. – Os subtítulos deste texto são adaptações das divisões originais do livro.

SUPER 152 - Dezembro 2010

Cavalheiros cientistas

Quando (quase) ainda não havia profissionais

Ricos e filantropos, investigavam por puro prazer. Sem eles, o progresso teria sido muito diferente.

Na segunda metade do século XIX, um jovem escocês, Robert Kidston (1852–1924), herdou uma boa quantia, o que lhe permitiu viver sem dificuldades e pagar os seus estudos de paleontologia e posterior investigação sobre a flora arcaica. Após a sua morte, a colecção de 7500 plantas e 400 desenhos que deixara foi doada à British Geological Survey (BGS), instituição dedicada ao estudo da Terra. Ali permaneceu, semi-esquecida, até que alguém se apercebeu, recentemente, que esses fósseis de 360 milhões de anos, em excelente estado de preservação, constituíam uma valiosa ferramenta para analisar as alterações climáticas e as florestas paleozóicas.
A importância do legado de Kidston é equiparável à de outros gentlemen scientists, cavalheiros abastados que se dedicaram à investigação simplesmente como hobby. A verdade é que muitos cientistas dos séculos XVII, XVIII e XIX, aos quais devemos grandes descobertas em diversos campos, puderam consagrar a vida ao estudo por descenderem de famílias nobres ou terem casado com mulheres ricas, numa época ou que não havia apoios económicos dos governos para esse fim. Quase todos pertenciam à aristocracia britânica e faziam parte, como o próprio Kidston, da Royal Society, uma associação formada em Londres, em 1660, por um grupo de homens irrequietos que se reuniam para debater filosofia, anatomia, matemática e ciência em geral.
Entre os fundadores, havia personalidades como William Brouncker ou Sir Christopher Wren, filho do diácono dos reis de Inglaterra e o arquitecto responsável pela reconstrução da Catedral de São Paulo, em Londres. Integrava também o aristocrata irlandês Robert Boyle (1627–1691), herdeiro do conde de Cork e precursor da química moderna (é conhecido pela lei de Boyle-Mariotte, sobre o volume dos gases). Aos 15 anos, decidira viajar pelo mundo; quando regressou, já com 17 anos, descobriu que tinha herdado a propriedade de Stalbridge e várias quintas na Irlanda, uma autêntica fortuna que consagrou à investigação.

Duas épocas

Os séculos XVIII e XIX foram muito distintos. No primeiro, os grandes estados europeus, guiados pelas noções do despotismo esclarecido, criaram as academias de ciências para acolher a elite da investigação; fundaram observatórios de astronomia, escolas militares, jardins botânicos, hospitais e colégios de cirurgiões e financiaram expedições científicas. O século XIX, em contrapartida, foi o tempo das revoluções burguesas e do desenvolvimento da universidade moderna, que combina ensino e investigação, como explica o historiador E. Ausejo: “O perfil maioritário deixa de ser o do rico excêntrico para se transformar no do burguês abastado com acesso a uma educação superior e, através disso, a uma profissão científica com inegáveis vantagens para a ascensão social das classes médias.”
Esta evolução não obsta a que muitos cientistas proviessem de famílias nobres ou de grandes tradições, como a de Henry Cavendish (1731–1810). O físico e químico inglês, que descobriu o hidrogénio e estudou, pela primeira vez, a massa da Terra e a força gravitacional, descendia dos duques de Kent e dos duques de Devonshire, linhagens que remontam ao tempo dos normandos. Alguns dos gentlemen scientists constituíam uma nova versão dos sábios do Renascimento, cujo raio de acção abarcava numerosas matérias. Foi o caso de Goldsworthy Gurney (1793–1875), cirurgião, químico, arquitecto, construtor e inventor responsável pelo desenvolvimento dos primeiros veículos a vapor, precursores dos actuais automóveis.

Viajar e pensar

Parece óbvio que a condição financeira deve ter ajudado muito esses investigadores aristocráticos e, embora E. Ausejo duvide de que o estereótipo de cientista milionário fosse generalizado (afirma que se trata de “casos pitorescos mas não tão frequentes; a ciência não foi uma obra de senhorios ociosos”), o facto é que a sua fortuna permitiu a alguns, como Alexander von Humboldt (1769–1859), dedicar a vida à exploração e ao estudo. Graças à avultada herança recebida da mãe, este cavalheiro prussiano pôde viajar, primeiro, até à Grã-Bretanha, para se formar, e, depois, partir à descoberta de outros continentes. Humboldt foi geógrafo e naturalista, além de especialista em etnografia, astronomia, vulcanologia, física e outras matérias.
Foi, também, um testamento que mudou a vida do geólogo e vulcanólogo escocês James Hutton (1726–1797), responsável por formular o princípio uniformista, segundo o qual os processos naturais que agiram no passado são os mesmos que operam no presente. Hutton era médico mas trocou a profissão pela agricultura quando herdou uma grande propriedade paterna. Como os trabalhos na quinta iam de vento em popa, mudou-se para Edimburgo para se dedicar a tempo inteiro ao estudo da superficie terrestre.

O laboratório em casa

Outro gentleman scientist foi Charles Darwin (1809–1882). Membro da Royal Society, nunca teve problemas económicos. Pelo contrário, provinha de uma família de médicos com um modo de vida folgado e a abastança cresceu ainda mais quando casou com a prima, Emma Wedgwood, herdeira de uma grande fortuna graças ao negócio de olaria dos pais. Isso permitiu a Darwin trabalhar toda a vida em casa e consagrar-se à investigação e à publicação das suas obras.
O autor de A Origem das Espécies partilhava muitas características com o primo, Sir Francis Galton (1822–1911), homem de múltiplos interesses que se dedicou à geografia, à meteorologia e à estatística, além de explorar os trópicos, fundar a psicologia diferencial e inventar a identificação através das impressões digitais. Galton pertencia a uma família que fez dinheiro com a banca, o aço, as armas e um ou outro casamento com mulheres ricas. Por outro lado, herdou também do passado as inquietações científicas do avô, Samuel ­John, que publicou vários livros e foi membro da Lunar Society, um clube de filósofos e intelectuais que se autodenominavam “lunáticos” e se reuniam em noites de Lua Cheia. Entre eles, encontravam-se James Watt, o matemático e engenheiro escocês que foi o artífice da máquina de vapor, e Erasmus Darwin, avô de Charles e pioneiro do evolucionismo.
A botânica foi uma das disciplinas que mais atraíram os investigadores do século XIX, como o londrino Joseph Banks (1743–1820). Rico de nascença, acompanhou Cook na sua primeira grande viagem, entre 1768 e 1771, e introduziu na Europa muitas árvores e plantas desconhecidas até à data, como o eucalipto e a acácia.
O estudo do reino vegetal desenvolveu-se igualmente em Portugal durante o Século das Luzes, quando a ciência estava nas mãos de uma minoria culta, formada por nobres, diplomatas, homens da Igreja... Durante esse perío­do fértil do século XVIII, o conde da Ericeira promoveria as Conferências Discretas e Eruditas, de onde saíram sócios para criar a Academia da Ciência (1720); o rei D. José adere ao movimento do despotismo esclarecido e apoia o marquês de Pombal na instituição do Colégio dos Nobres e na criação de gabinetes, laboratórios e museus. Já no século XIX, é criado o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, por iniciativa do conde de Ficalho e de Andrade Corvo, considerado um “moderno e útil complemento para o ensino e investigação botânicos na Escola Politécnica, símbolo dos novos rumos de progresso social e científico”.

Eclosão vegetal

Embora Francisco Manuel de Mello Breyner, o conde de Ficalho, se tivesse destacado como botânico e se enquadre no perfil de gentleman scientist, outros nomes conhecidos da botânica portuguesa talvez tivessem nomes menos sonantes ou não pudessem dispor de tantos recursos, mas a sua obra foi igualmente importante, como é o caso, entre outros, de Avelar Brotero (1744–1828), professor de botânica e agricultura na Universidade de Coimbra e autor de obras como Flora Lusitânica, na qual identificava cerca de 1800 espécies, muitas delas desconhecidas até então. Em sua honra, foi fundada a Sociedade Broteriana, agremiação científica que viria a exercer grande importância no desenvolvimento da botânica portuguesa através do seu Boletim.
Outro indiscutível cavalheiro da ciência foi o abade Correia da Serra (1750–1823), que se dedicou sobretudo à investigação nas áreas da botânica e da geologia e fundou, juntamente com o duque de Lafões, a Academia de Ciências de Lisboa. De grande prestígio intelectual, conviveu com os maiores cientistas da sua época e publicou trabalhos nas mais conceituadas revistas, tendo mesmo sido descrito pelo presidente Thomas Jefferson, dos Estados Unidos, como “o homem mais erudito que jamais conheci”. Com o prestígio e os conhecimentos que possuía no exterior, este presbítero secular e fidalgo da Casa Real ajudou o país a desenvolver a investigação e a mentalidade científicas, num esforço para Portugal não ficar completamente para trás em termos europeus.
Claro que, apesar disso, tudo era feito de modo muito mais modesto do que, por exemplo, no Reino Unido. Os meios eram incomparavelmente menores e reinava a precariedade. A “descolagem” científica apenas se verificaria mais de um século depois. Seja como for, muitos investigadores europeus dos séculos XVIII e XIX eram amadores que se dedicavam à ciên­cia por diversão, embora ganhassem a vida noutras profissões. O próprio Darwin era um jovem cientista amador quando embarcou no HMS Beagle; o primeiro microscópio composto foi inventado por Zacharias Janssen, um mercador holandês e cientista amador, e há muitos outros exemplos.

Colecções e museus

Em Portugal (como noutros países), há diversos exemplos de grandes coleccionadores cujas obras de arte e objectos reunidos ao longo da existência deram origem à criação de museus baptizados com os seus nomes: é o caso do Museu Calouste Gulbenkian ou, mais recentemente, do Museu Berardo, ambos si­tuados em Lisboa. Tanto um como outro podem ser considerados mecenas das artes.
Os belgas Paul Otlet (1868–1944) e Henri La Fontaine (1854–1943), filhos de famílias da alta burguesia, foram também grandes coleccionadores. Juntos, criaram a classificação decimal universal, método bibliográfico para ordenar e catalogar as obras nas bibliotecas, além do Mundaneum, um espaço que reuniria todo o saber em pequenas fichas interligadas. Otlet foi um visionário que antecipou a internet: “A mesa de trabalho deixará de estar cheia de livros. Em vez disso, terá um ecrã e um telefone. Um edifício imenso servirá para armazenar todos os livros e toda a informação e, através de uma chamada, será possível pedir qualquer página para se poder ver no ecrã”, escreveu. O belga imaginou “uma máquina para o trabalho intelectual, suporte de uma enciclopédia completa e colectiva que possa reflectir o pensamento humano e a materialização gráfica de todas as ciências e as artes; todos os pensadores de todas as épocas estariam a colaborar na sua criação; esse novo meio vai permitir formar um Livro Universal”. Uma obra assim acolheria o trabalho de todos os cavalheiros da ciência.

Altruístas do século XXI

Actualmente, não há muitos cientistas a trabalhar exclusivamente por amor à ciência, mas ainda resta um ou outro. De acordo com Millán Muñoz, director do Centro de Estudos Ambientais do Mediterrâneo (CEAM), um deles é Robert Schemenauer, um meteorologista canadiano que, após trabalhar durante anos para o Governo do seu país, decidiu retirar-se para uma casa nas montanhas. Ali, desenvolveu um sistema de recolha de água do nevoeiro e neblinas com uma rede de polipropileno (semelhante ao nylon), capaz de captar e armazenar a humidade. Depois, fundou a FogQuest (http://www.fogquest.org), organização sem fins lucrativos destinada a promover projectos para abastecer de água comunidades rurais de países em vias de desenvolvimento. Algumas povoações do planalto sul-americano e de vários paí­ses africanos já dispõem de água potável graças a esta técnica.

SUPER 152 - Dezembro 2010

Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

ESA divulga nova versão do seu mapa-mundo

Já está disponível no portal do projeto GlobCover a última versão do mapa da superfície terrestre.
A Agência Espacial Europeia disponibilizou recentemente uma nova versão do mapa da superfície terrestre que poderá ser descarregado por qualquer internauta no portal do projeto GlobCover .
Desenvolvido em parceria com a Universidade católica de Lovaina (Bélgica) este mapa-mundo foi criado a partir de informação recolhida durante o ano passado pelo satélite Envisat , em órbita desde 2002.
Para além de apoiar a comunidade científica no estudo das alterações climáticas, pretende aumentar a capacidade da comunidade internacional na resolução de catástrofes naturais ou crises humanitárias, disponibilizando informação que de alguma forma ajude a prever situações de emergência.
A última versão deste documento, publicada em 2005, foi descarregada por cerca de 8000 internautas.

Fonte: http://aeiou.expresso.pt/esa-divulga-nova-versao-do-seu-mapa-mundo=f623316

Números...

6451


quilómetros quadrados foram desflorestados na Amazónia brasileira entre Agosto de 2009 e Julho de 2010, um número que significa uma redução recorde de 14 por cento em relação aos doze meses anteriores, revelou o Governo brasileiro.

Pequenas coisas...

Visite a exposição de ilustração científica "Os bichos por seu ponto e risco"

Visite até 19 de Janeiro de 2011 a exposição de ilustração científica "Os bichos por seu ponto e risco", da autoria da bióloga Milene Matos, na Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro. A entrada é gratuita.

Fogo-de-artifício terá causado pânico e morte a milhares de aves no Arkansas

A misteriosa “chuva de aves” na noite da passagem do ano em Beebe, no Arkansas, poderá ser explicada pelo pânico que os animais sentiram durante os fogos-de-artifício, de acordo com os resultados preliminares.
Ainda será preciso realizar mais testes, nomeadamente à presença de substâncias tóxicas, mas o laboratório de Veterinária da Arkansas Livestock and Poultry Commission revelou ontem à noite, numa nota, que “as aves sofreram de um trauma físico intenso que levou a hemorragias internas e à morte”. Foram encontrados vários coágulos, acrescentam as autoridades.
Os animais pareciam saudáveis, os pulmões, cérebro, coração, rins, intestinos e músculos apresentavam-se normais e os estômagos estavam vazios, acrescenta a nota. Não foram detectados sinais de doenças infecciosas ou crónicas.
Na noite da passagem de ano, cerca das 23h30 locais, o Departamento da Polícia da pequena cidade de Beebe recebeu várias queixas relativas a aves mortas - tordos-sargentos ou pássaros-pretos-da-asa-vermelha (Agelaius phoeniceus) - que estavam a cair do céu para cima de telhados e quintais. Inicialmente, as autoridades avançaram ter encontrado mil aves mortas mas o mais recente balanço dá conta de cinco mil animais recolhidos.
"Não é claro o que causou este comportamento pouco habitual nas aves. Não obstante foram registados vários episódios de ruído elevado pouco antes das aves começarem a cair do céu. Os tordos-sargentos têm fraca visão nocturna e normalmente não voam à noite", escreve em comunicado a Comissão para a Caça e Pesca no Arkansas (AGFC, sigla em inglês).
Karen Rowe, ornitóloga da AGFC citada pelo "New York Times", acredita que a teoria que prevalece é a de que as aves ficaram assustadas com os fogos-de-artifício da passagem de ano e levantaram voo dos seus locais de repouso de repente, voando a baixa altitude, o que as fez colidir com chaminés, casas e árvores. "Foi uma combinação de factores, na sequência temporal certa para conduzir a este resultado", comentou.
Além da Arkansas Livestock and Poultry Commission também um laboratório no Wisconsin está a fazer análises às aves.

Perfil do tordo-sargento (Agelaius phoeniceus)

O tordo-sargento é um passeriforme que ocorre na maior parte da América do Norte e em parte da América Central. Reproduz-se do Alasca ao Golfo do México, México e Guatemala, com populações isoladas nas Honduras e Costa Rica.
A ave alimenta-se de sementes e insectos, caçando-os em pleno voo ou em plantas. No Inverno, esta espécie abandona as zonas húmidas e dirige-se aos campos agrícolas para se alimentar.
Tem estatuto de Pouco Preocupante na lista da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN). "Apesar de a tendência populacional parecer estar a diminuir, o declínio não será suficientemente rápido para se aproximar da classificação Vulnerável", informa a UICN.

Helena Geraldes
http://ecosfera.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1473492

Criado rato que canta como um pássaro

Um grupo de investigadores da Universidade de Osaka, no Japão, anunciou ontem, terça-feira, a criação de um rato geneticamente modificado que canta como um pássaro. Veja o vídeo.
De acordo com o investigador-chefe, Arikuni Uchimura, o animal nasceu por acidente no âmbito do estudo "Projecto Rato Evoluído" que pretende explicar a evolução da linguagem humana, modificando geneticamente ratos.
"As mutações são a força motriz da evolução. Cruzámos ratos geneticamente modificados por gerações para ver o que acontecia. Verificamos os recém-nascidos um por um... Um dia encontramos o que chilreava como um pássaro", disse o coordenador do estudo à AFP.
Os cientistas acreditam que esta característica deve passar para próximas gerações e começam já a ter provas vivas disso. O estudo revelou que os ratos comuns que crescem em contacto com os ratos-pássaro emitem cada vez menos os habituais grunhidos ultrasónicos, o que os leva a crer que a linguagem pode ser transmitida entre uma população, como uma espécie de dialecto.
"Estamos a estudar como um rato que emite novos sons afecta os do mesmo grupo. Por outras palavras, se tem conotações sociais", disse Uchimura.
Ao que parece, a nova forma de comunicação não é a única mudança estranha no animal. De acordo com o coordenador do estudo, o rato-pássaro nasceu com características físicas de que não seestava à espera. "Tem extremidades curtas e um rabo mais fino, como o de um cão dacshund", revelou.
O laboratório possui agora mais de 100 ratos com esta característica e os pesquisadores estão ansiosos para a sua ajuda no estudo da evolução da linguagem humana.