Geologia/Biologia
Quinta-feira, 23 de Maio de 2013
A geologia, os geólogos e os seus métodos interação de sistemas
Quinta-feira, 30 de Junho de 2011
O passo em falso de Stephen Jay Gould
Artigo põe em causa ensaio do célebre especialista em evolução norte-americano sobre como preconceitos afectam a ciência.Stephen Jay Gould, o famoso cientista que se distinguiu tanto pelo estudo da evolução como pela sua defesa frente aos ataques da direita fundamentalista americana, terá sido vítima dos preconceitos que ele próprio denunciou num célebre artigo na Science e num ainda mais célebre ensaio, no livro A Falsa Medida do Homem (Quasi).
Tudo isto tem a ver com um cientista do século XIX, Samuel Morton, que reuniu uma colecção única de 1000 crânios, a inteligência e o racismo. E, claro, a integridade científica.
Gould, que morreu em 2002, questionou a integridade científica de Morton, acusando-o de ter, subtilmente - inconscientemente -, manipulado as medições que fez da capacidade craniana dos homens brancos para demonstrar que estes seriam os mais inteligentes. Isto para demonstrar que a raça branca - e o seu expoente, o homem branco - era a superior. A seguir vinham os asiáticos, os índios americanos e, no fim, os africanos.
Na altura em que Morton fez as suas experiências (a década de 1830, ainda antes da publicação de A Origem das Espécies por Charles Darwin, em 1859), quem era contra a abolição da escravatura defendia que a Humanidade não era una, mas antes que cada raça tinha sido criada em momentos distintos por Deus.
Mas um artigo publicado este mês na revista científica Public Library of Science - Biology (PLOS), acaba por pôr também em causa a integridade científica de Stephen Jay Gould - não preto no branco, mas é o que se pode aferir das conclusões dos cientistas que reconstituíram as experiências de Morton e chegaram à conclusão de que ele não terá manipulado, nem inconscientemente, as suas medições da capacidade craniana, feitas com sementes de mostarda, como dizia Gould.
E, pelo contrário, encontram indícios de que Gould é que terá sido vítima dos seus preconceitos - ou desejo de demonstrar como o racismo não tem bases científicas -, o que o levou a tratar os dados de uma forma discutível. Não o acusam de fraude no artigo, mas em entrevistas dadas a propósito do seu trabalho alguns membros da equipa têm cruzado essa linha vermelha.
Artimanhas
Morton, um médico de Filadélfia, como bom cientista, tentou substituir a especulação por factos e medições, usando a sua colecção impressionante de crânios, representando todos os grupos raciais humanos. Mas, de acordo com a crítica de Gould - que foi ao mesmo tempo biólogo, paleontólogo, historiador das ciências, ensaísta e divulgador de ciência e pensador sobre a teoria da evolução -, o trabalho de Morton é exemplar para ilustrar como "artimanhas inconscientes ou mal percebidas são provavelmente endémicas na ciência, pois os cientistas são seres humanos enraizados em contextos culturais, não autómatos que se dirigem para verdades externas", escreveu na Science, em 1978.
Gould tornou-se uma figura pública com uma enorme projecção - uma espécie de Carl Sagan para a evolução, embora tivesse algumas ideias polémicas. Mas, em termos de grande público, tornou-se uma figura incontornável, nos Estados Unidos e não só. Dele esperava-se um juízo acertado.
Mas o que a equipa coordenada por Ralph Holloway diz é que Gould, que nunca foi ele próprio repetir as medições de Morton, apenas analisou as suas notas em papel, estava errado quando afirmou que Morton foi influenciado subconscientemente pelos seus preconceitos raciais (compactando as sementes de mostarda nos crânios dos homens brancos, para caberem mais). A equipa voltou a medir 308 dos 670 crânios estudados por Morton, guardados no Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia em Filadélfia, e não encontrou nenhum desvio estatístico significativo na direcção apontada por Gould. Na verdade, as únicas excepções foram sete crânios, e três deles até sobreestimavam a capacidade de três crânios egípcios. "Estes resultados tornam falsa a afirmação de que Morton mediu mal os crânios com base nos seus preconceitos", escreve a equipa na PLOS de 7 de Junho.Gould acusa ainda Morton de ter usado vários subterfúgios, como ter dividido os dados em subgrupos e ter amalgamado outras populações e não ter fornecido dados sobre isso. A equipa descobriu que Gould fez algo semelhante, relativamente aos crânios de nativos americanos: excluiu 34 de uma amostra de 144. Se forem usados os dados todos, com o método de cálculo usado por Gould, escreve a equipa, a média das dimensões cranianas da população de nativos americanos é ligeiramente menor do que usando o método de Morton.
Preconceito e resultado
"Estes elementos do trabalho de Gould são surpreendentes", disse ao jornal The New York Times Jason Lewis, da Universidade de Stanford (EUA), o principal autor do trabalho agora publicado. "Não consigo dizer se foram deliberados." No artigo, a equipa escreve: "Ironicamente, a própria análise do trabalho de Morton é provavelmente o melhor exemplo de como um preconceito influencia resultados."
Não é a primeira vez que o trabalho de Stephen Jay Gould sobre Morton é posto em causa. John S. Michael, um estudante universitário da Universidade da Pensilvânia, publicou um estudo em 1988, em que concluía que os resultados de Morton eram "razoavelmente precisos". A sua crítica não vingou: "Não é inteiramente evidente que se deva preferir as medições de um estudante às de um paleontólogo profissional", escreveu o filósofo da ciência Philip Kitcher, da Universidade de Colúmbia (Nova Iorque), recorda o New York Times.
Hoje, Philip Kitcher diz que Gould provavelmente se defenderia com brilho. "Ele não sai disto como um mau carácter, mas como alguém que comete erros." Ian Tattersall, conservador do Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, que conheceu Gould, também não duvida de que ele "teria uma resposta pronta". Mas sublinha que Stephen Jay Gould provou mesmo aquilo que queria demonstrar: que a ciência é susceptível a preconceitos inconscientes.
Por Clara Barata
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Anotações de Darwin divulgadas na internet
Biodiversity Heritage Library vai dar a conhecer acervo pessoal do britânicoUm projecto que, entre outras instituições, envolve a Biblioteca da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, começou a digitalizar anotações de livros da biblioteca pessoal de Charles Darwin.
A primeira fase do trabalho foi finalizada e qualquer pessoa pode aceder pela internet os 330 livros mais “rabiscados” do naturalista britânico, através do site da Biodiversity Heritage Library .
O objectivo do projecto é mostrar o que Darwin pensava de outros autores. "Foi dada muita atenção aos seus manuscritos e correspondências, mas a sua biblioteca nunca teve a atenção que merecia", afirmou a bibliotecária Anne Jarvis, da Universidade de Cambridge.
O sistema de pesquisa do site permite que o utilizador encontre documentos por títulos ou palavras-chave, o que torna a procura muito mais facilitada.
Os mentores do projecto pretendem colocar na rede todas as páginas dos 1480 livros do acervo pessoal de Darwin, 748 dos quais contêm anotações pessoais.
Este projecto surge na sequência de outro que começou em 2008, quando a Universidade de Cambridge anunciou que digitalizaria vinte mil papéis relacionados com a vida de Darwin e os seus estudos. A universidade pretendia assim criar um banco de informações que estaria à disposição do público pela internet e que apresentaria, entre outras curiosidades, receitas da sua mulher, Emma, e cartas que revelam momentos desconhecidos da vida de Darwin.
Fonte: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=49774&op=all
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Abelhas são pessimistas
Uma abelha não tem como expressar pessimismo em palavras. Não dá para ir lá e perguntar “ei, abelha, você acha que esse copo está meio cheio ou meio vazio?”. Mas em ações, pode.Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, treinou algumas a associar um cheiro específico a uma recompensa legal, doce, e outro a uma recompensa ruim, amarga. Então, para deixá-las traumatizadas, sacudiram as colméias onde metade delas estava, simulando o ataque de um predador.
A ideia era observar se, assim como uma pessoa que sofre de depressão, as abelhas sacudidas encarariam um novo estímulo, neutro e ambíguo, como positivo ou negativo.
De fato, elas continuaram se interessando pelo primeiro cheiro, mesmo após sofrerem o suposto ataque. Mas, quando exposta ao novo aroma, desconhecido, a maioria delas ficou relutante em se aproximar. Além disso, análises posteriores feitas nos cérebros das abelhas sacudidas mostraram níveis alterados de dopamina, serotonina e octopamina, três neutransmissores potencialmente ligados à depressão.
Ou seja, elas agiram como se fossem pessimistas, e seus cérebros deram os mesmos sinais.
Segundo os cientistas, isso pode significar que as abelhas têm, em algum nível, sentimentos. É a primeira vez que um estudo descobre sinais de emoções em animais invertebrados.
Então, seja legal. Se alguma abelha aparecer por aí, não saia correndo, não bata nela com o jornal. Você pode partir o coração da pobrezinha. Vai saber.
Thiago Perin
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A selva urbana
As cidades são o lar de inúmeros animais braviosSe pedir a alguém que diga nomes de bichos citadinos, ouvirá decerto falar em cães, gatos, pombos, gaivotas e pardais. Porém, apesar de as urbes serem ambientes artificiais criados pelo homem, são inúmeros os animais selvagens que também se tornaram “urbanos”. O biólogo Jorge Nunes mostra-nos alguns dos que podemos observar nas principais cidades portuguesas. Fique de olho nos seus vizinhos bravios.
Lembro-me bem da primeira vez que visitei a capital britânica, já lá vão muitos anos, e do dia deslumbrante que passei a descobrir os recantos encantados do Museu de História Natural. Mas, curiosamente, o que recordo com maior emoção da semana passada em Inglaterra foram os passeios a pé pelos jardins e parques públicos de Londres e Oxford.
Sempre soube que havia cães, gatos e pombos nas cidades (por vezes, de tão comuns, já nem reparamos neles), mas as caminhadas pelos magníficos jardins ingleses permitiram-me descobrir, para meu grande espanto, que também aí podiam encontrar-se animais selvagens. E, evidentemente, não me refiro aos que estão confinados aos jardins zoológicos!
Foi no coração da metrópole mais populosa da União Europeia (quem diria?), com quase tantos habitantes como a nação portuguesa, que observei pela primeira vez, e sem necessidade de binóculos, corvos, gralhas, gansos selvagens, patos bravos de diferentes espécies, esquilos e chapins que vinham comer às mãos dos transeuntes, e até veados e gamos que se passeavam livremente pelos relvados, bosques e jardins. Também me falaram das raposas, que existiam (e ainda existem) aos milhares nos jardins londrinos, mas os seus hábitos nocturnos impediram-me de as lobrigar, tendo acabado por conhecê-las anos mais tarde através de um documentário da BBC.
O curioso dessas minhas deambulações urbanas é que pude observar mais bichos silvestres nos jardins públicos britânicos do que em dezenas de saídas de campo que havia feito a algumas das principais áreas protegidas portuguesas.
Após outras viagens (reais e virtuais, através de filmes e documentários) por diversos países dos cinco continentes, acabei por perceber que a experiência vivida em Londres, afinal, poderia ter acontecido em qualquer outra cidade do mundo. Em todas elas se assiste à convivência (nem sempre salutar, diga-se), entre homens e bichos bravos.
A capital portuguesa não é excepção. Também ela acolhe animais selvagens que coabitam connosco sem que, muitas vezes, nos apercebamos da sua presença. É claro que não podemos encontrar os veados e gamos de Oxford, as raposas e os esquilos de Londres, os texugos de Copenhaga, os javalis de Berlim, os lobos de Brasov (Roménia), os falcões-peregrinos de Nova Iorque, os urubus-pretos de São Paulo, os macacos Hanuman do Rajastão (Índia) ou os ursos polares de Churchill (Canadá), mas Lisboa é igualmente uma urbe selvagem, bem como todas as outras cidades e vilas portuguesas.
Cidades selvagens
O surgimento das cidades, há cerca de seis mil anos, constituiu um salto considerável na história humana, tendo contribuído para que as populações se defendessem com mais facilidade, acentuassem relações sociais, partilhassem conhecimentos, utensílios e serviços e criassem cultura e ciência, que acabaram por tornar o ser humano civilizado. Curiosamente, os animais selvagens nunca estiveram muito longe. Afinal, quem consegue resistir ao apelo citadino?
Com o passar dos séculos, as primeiras cidades, essencialmente horizontais (de pedra, madeira e adobe), foram dando lugar a gigantescas construções de betão e aço, que parecem cair em direcção ao céu como as falésias se despenham sobre o mar. Mas nem isso demoveu a bicharada, que continuou, tal como as pessoas, a responder ao apelo das grandes metrópoles, mesmo quando o verde não passava de um ténue reflexo nas desmesuradas cortinas de vidro e metal.
Sendo as cidades ambientes artificiais criados pelo homem, de certa forma para fugir às agruras do campo e ao contacto insalubre com as ameaças naturais, é curioso verificar que elas nunca foram um domínio exclusivo dos seres humanos. Inúmeros bichos tornaram-se também eles “citadinos”, ocupando a estranha selva de betão, adaptando-se e prosperando com invejável sucesso. A sua sobrepopulação, em muitos casos, acabou por transformá-los em vizinhos incómodos e verdadeiras ameaças para a segurança e a saúde públicas, sobretudo como fonte de infecções e causa de acidentes rodoviários.
Por que será que tão grande número de animais trocou a tranquilidade dos espaços naturais pela frieza das fachadas e dos recintos públicos citadinos, onde prevalecem o cimento, o metal e o vidro? Na verdade, podem apontar-se várias razões. Entre as mais evidentes, conta-se o fácil acesso à comida, em resultado dos inúmeros desperdícios humanos (lixo orgânico) que se encontram com facilidade nas áreas urbanas e periurbanas. No entanto, há outras causas menos intuitivas, mas igualmente importantes. Alguns exemplos: as condições climatéricas mais acolhedoras (as cidades são “ilhas de calor” que apresentam temperaturas geralmente mais elevadas do que as áreas circundantes); a tolerância dos seres humanos (em vez de perseguirem os animais selvagens, como é habitual no meio natural, acabam por ignorar ou consentir a sua presença nas cidades, crentes de que estas serão mais ecológicas); a ausência de predadores (o que, associado ao excesso de alimentos, faz aumentar o ritmo de procriação, acabando muitas vezes por surgir a sobrepopulação); e, pasme-se, a abundância de nichos ecológicos e abrigos disponíveis (estes vão desde ruínas e casas abandonadas a igrejas e cemitérios, telhados, varandas e terraços, além de árvores isoladas, pequenos bosques, jardins, quintais e hortas, entre outros).
A quantidade e diversidade de animais citadinos nossos vizinhos, tal como acontece nos ambientes naturais, acaba por ser directamente proporcional à variedade de habitats disponíveis em cada área metropolitana. Se, além dos jardins, existirem também pequenos bosques, hortas e quintais, rios, ribeiros e lagos, então serão imensas as aves e os mamíferos, mas também os répteis, anfíbios e insectos que aí ocorrerão, de forma permanente ou sazonal, e cuja vizinhança quase sempre ignoramos. São animais selvagens, entenda-se, que, embora coabitando com o homem, nunca alienaram a sua liberdade.
Criaturas com penas
De toda a fauna urbana, as aves destacam-se pela sua variedade e abundância. Todos nós já reparámos certamente nos pombos e nas gaivotas, verdadeiras pragas em diversas cidades, ou nos pardais e nas andorinhas, geralmente mais tolerados e acarinhados. Mas desengane-se quem pensa que esses são os únicos seres com penas a viverem nas urbes.
São tantas e tão variadas as aves urbanas que em várias cidades foi necessário elaborar guias para auxiliar a sua identificação pelos ornitólogos e curiosos. Um dos mais famosos é o Guia das Aves de Lisboa, publicado em 1997 pela autarquia alfacinha. Nas páginas desse livro de bolso, pode descobrir-se que, à época, já tinham sido observadas 133 espécies dentro dos limites da cidade (35 nidificantes, 65 migradoras e 33 de ocorrência esporádica).
Alguns anos antes (1993), já se havia publicado, com a chancela da Fundação de Serralves, uma obra similar sobre as aves do Parque de Serralves, na cidade do Porto. Intitulava-se Aves de Serralves e dava a conhecer aos visitantes as 79 espécies que se podiam encontrar com facilidade nos jardins da instituição.
Na senda desses trabalhos, várias foram as associações de defesa do ambiente e autarquias que passaram a interessar-se pelo património ornitológico urbano e a elaborar publicações que permitem aos visitantes dos vários parques espalhados pelas cidades portuguesas conhecer e identificar a sua avifauna.
Com a vulgarização das tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente da internet, dos blogues e dos fóruns, muitas dessas informações passaram a estar disponíveis à distância de um simples clique. É o exemplo da avifauna lisboeta, que pode ser descoberta em Aves de Lisboa (em http://lisboa.avesdeportugal.info). Este recurso online permite conhecer as 134 espécies de aves que já foram observadas na capital, em especial as 50 mais frequentes e fáceis de encontrar, bem como alguns percursos que incluem os melhores locais para aprender e treinar conhecimentos básicos de ornitologia urbana.
Gonçalo Elias, coordenador do projecto Aves de Portugal e do portal Aves de Lisboa, afirma, peremptório, que “Lisboa é uma cidade muito rica em aves”. No entanto, dado que cada espécie tem as suas preferências quanto ao habitat, “se forem visitadas várias zonas da cidade com diferentes características [parques e jardins, faixa ribeirinha, campos baldios, Parque Florestal de Monsanto, além das áreas edificadas], há mais possibilidades de detectar um maior número de espécies”, conclui.
Espreitar os passarinhos
Mesmo sem sair das zonas edificadas, densamente povoadas e com escassa vegetação, é possível descobrir algumas aves interessantes, além dos pardais, pombos e gaivotas que são omnipresentes nos céus citadinos. Entre as mais comuns, contam-se os andorinhões. Segundo Gonçalo Elias, “em Lisboa nidificam duas espécies: o andorinhão-preto, que ocupa preferencialmente as zonas mais modernas, e o andorinhão-pálido, que é mais abundante nas zonas antigas da Baixa e do Bairro Alto; ambos nidificam nos buracos dos edifícios, por vezes sob as telhas”. O andorinhão-preto, contudo, é presença habitual em muitas outras cidades portuguesas, como Viana do Castelo, Porto, Vila Real, Bragança, Coimbra, Leiria, Guarda, Évora e Portalegre. Já o andorinhão-pálido, caracterizado pela sua coloração acastanhada, pode ver-se em Aveiro, Castelo Branco, Setúbal e Faro. Ainda nessas zonas das cidades, onde dominam as catedrais de betão, surgem amiúde nos telhados os rabirruivos-pretos, as andorinhas-dos-beirais e as andorinhas-das-chaminés, entre outras.
Por oposição às áreas edificadas, geralmente mais pobres em avifauna, os parques, jardins e espaços verdes acolhem uma vasta variedade de seres alados, sobretudo passeriformes. São vulgares as lavandiscas, os melros, os chapins, os chamarizes, os verdilhões, os pintassilgos, as felosas, as carriças, as toutinegras-de-barrete-preto, os piscos-de-peito-ruivo, os cartaxos e as trepadeiras, de um vasto rol de muitas outras.
Se essas zonas tiverem espelhos de água naturalizados, como acontece nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, ou no Parque da Cidade, no Porto, então é fácil encontrar galeirões, galinhas-de-água, patos, guinchos, gaivotas, guarda-rios, mergulhões-pequenos e garças-reais.
Nos campos baldios, também podem ver-se peneireiros (em Lisboa, nidificam desde 1995 nos respiradouros das fachadas da Torre do Tombo), águias-de-asa-redonda, fuinhas-dos-juncos, petinhas-dos-prados e garças-boieiras.
Nas áreas florestais e nos pequenos bosques, serão ainda habituais os gaios, as rolas-comuns, os estorninhos-pretos, as estrelinhas, os tentilhões, os pombos-torcazes, os pica-paus, as pegas-rabudas e as poupas. Como rapinas nocturnas, raramente vistas mas frequentemente escutadas, destacam-se os mochos-galegos e as corujas-das-torres.
As cidades ditas “ribeirinhas”, assim chamadas por serem banhadas por rios ou ribeiras, que são a larga maioria do nosso país, oferecem outro atractivo ornitológico: as aves aquáticas, além das que surgem habitualmente nos pequenos lagos existentes nos espaços verdes.
As que se localizam nas margens dos grandes estuários, como acontece com Caminha, Viana do Castelo, Porto, Aveiro, Lisboa, Setúbal e Faro, constituem mesmo verdadeiros santuários ornitológicos. Entre as aves mais comuns nessas zonas húmidas, contam-se as gaivotas (são muitas e diversificadas as espécies que se “escondem” sob tão lata designação, sendo as mais vulgares o guincho e a gaivota-de-asa-escura), as andorinhas-do-mar, os corvos-marinhos, as garças-brancas-pequenas, os maçaricos-das-rochas, os pilritos, os ostraceiros e as rolas-do-mar. Na zona do Parque das Nações, em Lisboa, surgem, ocasionalmente, flamingos e colhereiros e várias espécies de patos. No estuário do Douro, observam-se fuselos, gaivotões-reais, patos-pretos e piscos-de-peito-azul (que, não sendo aves aquáticas, surgem sobretudo nas grandes zonas húmidas do litoral).
Essencialmente no centro e no Sul do país, as cegonhas-brancas tornaram-se um ícone sobre as chaminés, as torres e os campanários. A sua presença faz-se notar, especialmente durante as ruidosas paradas nupciais, em Castelo Branco, Portalegre, Évora, Beja e Lagos, bem como em muitas outros burgos algarvios e alentejanos, como Barrancos, Alcácer do Sal e Mértola.
Mas não se pense que os passeios ornitológicos citadinos se fazem apenas de vulgaridades, pois também surgem muitas vezes habitantes mais incomuns, como é o caso dos falcões-peregrinos, avistados frequentemente nas pontes 25 de Abril e Vasco da Gama, em Lisboa; os milhafres-pretos que nidificam na Mata do Choupal, nas proximidades de Coimbra (constituem a maior colónia desta espécie em Portugal, espalham-se pelo vale do Mondego e costumam ser presença habitual a sobrevoar a auto-estrada A1); as corujas-do-mato, comuns no Parque da Cidade de Guimarães; os gorazes, também conhecidos por garças-nocturnas, frequentes em Tomar e em alguns lagos de Lisboa; os peneireiros-das-torres, pequenos e raros falcões migradores que podem encontrar-se nas muralhas e em velhos edifícios de Castro Verde, Elvas e Mértola; e as gralhas-de-nuca-cinzenta, que ocorrem nos centros da Guarda e de Castelo Branco.
Algumas das raridades registadas em Portugal (o registo das espécies raras é homologado pelo Comité de Raridades da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves), que fazem as delícias dos ornitólogos, também têm sido avistadas em áreas urbanas ou periurbanas. É o caso da gaivota-de-bico-riscado, mencionada em Esposende, no Porto e em Peniche; do andorinhão-cafre, avistado em Serpa, Moura e Barrancos; e do ganso-grande-de-testa-branca, observado no estuário do Cávado, em Esposende.
Mamíferos furtivos
Devido à convivência pouco pacífica com os humanos que os perseguem desde há séculos, os grandes mamíferos tornaram-se esquivos e recatados, não sendo por isso presença habitual nas cidades portuguesas. Ao contrário do que acontece em muitos países europeus, por cá, não há registo de veados, javalis, texugos ou lobos a viver em estado selvagem nos parques e jardins municipais.
Restam-nos os mamíferos de médio porte, como as raposas. Mesmo essas, apenas surgem esporadicamente em regiões periurbanas ou em extensas manchas florestais como o Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa. No entanto, os seus hábitos crepusculares afastam-nas geralmente dos olhares indiscretos, tornando muito difícil a sua observação. O mesmo acontece com as genetas, as fuinhas e os toirões, que podem ocorrer de modo fortuito em zonas florestais e agrícolas suburbanas, mas que também só raramente se avistam. Apenas sabemos da sua existência pelos vestígios (pegadas, dejectos e restos alimentares) que deixam à sua passagem ou pelas tocas e locais de refúgio que constituem igualmente sinais da sua ocorrência.
Uma presença frequente em muitas áreas florestais urbanas, que faz habitualmente as delícias de miúdos e graúdos com os seus saltos acrobáticos nas copas das árvores, é o esquilo-vermelho. Este bonito animal, que esteve extinto em Portugal desde o século XVI, tem vindo a recolonizar naturalmente o nosso país, sendo já presença habitual em diversas cidades nortenhas. Mais a Sul, foi introduzido no Jardim Botânico de Coimbra e no Parque de Monsanto.
Geralmente mais comuns e fáceis de observar costumam ser os pequenos mamíferos insectívoros, como o ouriço-cacheiro, a toupeira e os musaranhos (como o musaranho-comum ou o musaranho-de-dentes-brancos-grande). Igualmente vulgares são os chamados “micromamíferos roedores”, que incluem o rato-das-casas, o rato-do-campo e o rato-cego, e os mamíferos herbívoros, como os coelhos. Estes são animais comuns em muitos parques e jardins das cidades portuguesas (Parque da Cidade de Guimarães, Parque da Cidade do Porto e zonas verdes lisboetas, com destaque para Monsanto), surgindo também nos bosques e nas hortas urbanas e nos terrenos baldios, onde encontram refúgio e abundância de alimento.
Em quase todas as cidades portuguesas, são ainda presença habitual os morcegos, que se descobrem principalmente à luz crepuscular do anoitecer, enquanto perseguem os insectos, sobretudo em torno dos lampiões que os atraem. Das vinte e quatro espécies existentes em Portugal, o morcego-anão é sem dúvida o mais vulgar nos céus citadinos, embora muitas outras, como o morcego-hortelão, o morcego-arborícola-grande e o morcego-rabudo também frequentem as áreas urbanas. Até o morcego-de-ferradura-grande, apesar de essencialmente cavernícola, pode ser avistado em construções humanas, sendo por exemplo uma das espécies que ocorrem em Monsanto.
Vizinhos rastejantes
A vida selvagem nem sempre está ao nível dos olhos: por vezes, é necessário olhar para o chão para a descobrir. É aí que entram em cena as cobras e os lagartos, mas também sapos, rãs e salamandras. De um modo geral, embora sejam totalmente inofensivos, as pessoas nutrem pelos anfíbios e répteis citadinos pouca ou nenhuma simpatia. Eles, porém, parecem indiferentes à secular aversão humana. E, desde que encontrem as condições ecológicas adequadas à sua actividade e ao seu ciclo de vida, não desdenham de fixar-se no meio urbano.
Os jardins, os quintais, as hortas, os muros, as casas abandonadas e arruinadas, os telhados e os locais especialmente rochosos e pedregosos, como os campos baldios, são o reino dos répteis. Estes preferem áreas secas, onde mais facilmente se expõem ao sol para regular a temperatura corporal.
Entre as espécies urbanas mais comuns, mesmo em áreas densamente povoadas, conta-se a lagartixa, também conhecida por “sardanisca”. Trata-se de um réptil insectívoro que inclui na sua dieta escaravelhos, formigas e aranhas. Além de servir de alimento aos peneireiros e a várias aves de rapina diurnas e nocturnas, também faz parte do cardápio de outros répteis que podem encontrar-se nas cidades, como o sardão (um dos mais bonitos, robustos e esquivos lacertídeos da nossa fauna) ou a cobra-de-escada (apresenta um padrão de coloração dorsal muito característico, com duas linhas escuras longitudinais), comuns em praticamente todo o país.
A cobra-rateira é outro réptil que aprendeu a conviver com o homem, encontrando-se habitualmente em ruínas, bosques e jardins citadinos. Como o nome indica, é um eficaz predador de ratos e ratazanas, prestando um inestimável serviço como “raticida ecológico”. Curiosamente, é uma das poucas serpentes venenosas existentes em Portugal (produz um forte veneno de características neurotóxicas); no entanto, não é perigosa para o homem, já que é uma espécie opistoglifa (tem os dentes inoculadores de veneno localizados na garganta).
Outras espécies que podem ser encontradas nas cidades são a lagartixa-ibérica, que ocorre principalmente no centro e no Sul do país, e o camaleão, relativamente comum em várias povoações algarvias como Faro, Tavira e Vila Real de Santo António. A lista herpeteológica citadina não ficaria completa sem as osgas, que são animais verdadeiramente antropófilos, ou seja, fortemente associados a áreas urbanas. Surgem em locais pedregosos e rochosos, troncos de árvores, muros, paredes e habitações, sendo particularmente abundantes em zonas iluminadas por candeeiros e lampiões, os quais atraem as suas presas predilectas: mosquitos, moscas e borboletas.
Nas zonas mais húmidas, podem encontrar-se os cágados e as cobras-de-água. Contudo, os lagos ou charcos e as redes hidrográficas, como rios e ribeiros, são os habitats por excelência dos anfíbios. Com forte dependência da água, sobretudo durante a época de reprodução e a fase larvar, vêem-se obrigados a viver nos locais mais húmidos e sombrios das cidades. É lá que podemos surpreender a vulgar rã-verde, o sapo-comum, a salamandra-de-pintas-amarelas e os sapos-parteiros-comuns, que surgem frequentemente nos jardins públicos do Porto e de Coimbra, segundo informação disponibilizada pelo Guia de Anfíbios e Répteis de Portugal. Aliás, de acordo com essa publicação, que poderá constituir um precioso auxiliar na observação e identificação da fauna herpeteológica urbana, os anfíbios só não são mais comuns porque “verifica-se frequentemente um excesso de nutrientes orgânicos, contaminação por produtos fitossanitários e, por vezes, elevada concentração de predadores” nos ecossistemas aquáticos das cidades.
Multidões fervilhantes
Não é por acaso que os insectos são o grupo zoológico mais abundante. Na verdade, estão por todo o lado, e as cidades não são excepção. Não nos referimos apenas às melgas e moscas ou às abelhas e vespas, mas a toda uma multidão fervilhante de artrópodes que invade as nossas casas, os quintais, os bosques e os jardins.
Embora a sua presença seja muitas vezes incómoda, a ocorrência nos espaços urbanos é de vital importância, uma vez que são geralmente os animais que estão na base das cadeias alimentares, sendo a principal fonte de alimento de muitos dos outros inquilinos citadinos, como as aves, os mamíferos, os répteis e os anfíbios. São de tal modo importantes que a saúde dos jardins e das hortas urbanas está dependente do equilíbrio que se estabelece entre vegetarianos, insectos geralmente prejudiciais, e predadores, habitualmente benéficos. Este é um mundo minúsculo que nos passa despercebido, mas, mesmo sem nos darmos conta, travam-se diariamente ferozes e implacáveis batalhas às portas das nossas casas.
Entre os insectos mais comuns, especialmente nos campos relvados e canteiros floridos, contam-se as borboletas, os escaravelhos, as abelhas, as formigas, os gafanhotos, os grilos, os percevejos, os bichos-pau, as vespas, as moscas e os louva-a-deus, só para referir alguns de uma lista interminável.
Perto da água surgem ainda as libelinhas, libélulas e efémeras. Nos dias mais quentes, embora difíceis de descortinar, devido à sua camuflagem nos troncos e ramos das árvores, as cigarras brindam-nos com os seus cantos estridentes e inconfundíveis.
Qualquer jardim que se preze tem também, com toda a certeza, milhares de aranhas. Estas distinguem-se facilmente dos insectos por possuírem quatro pares de patas e pela ausência de antenas (os insectos adultos têm usualmente três pares de patas e um par de antenas). São magníficas predadoras de insectos, que capturam normalmente com o auxílio das suas elaboradas teias. Entre as espécies mais vulgares, contam-se a aranha-dos-jardins, a aranha-de-cruz e a aranha-caranguejo.
Agruras da vida citadina
Por vezes, corremos para lugares distantes e recônditos em busca da natureza e dos animais selvagens, esquecendo que temos, afinal, inúmeros à nossa porta. No entanto, apesar de muitos terem escolhido viver nas cidades, tirando partido de todas as vantagens que o ecossistema urbano lhes oferece, não se pense que levam uma vida tranquila. Afinal, são muitos os perigos que espreitam ao virar de cada esquina: excesso de ruído, poluição atmosférica, perseguição humana, risco de atropelamentos (com consequências nefastas para animais e pessoas). Pode mesmo dizer-se que os animais nossos vizinhos partilham connosco os elevados níveis de stress e hiperactividade que caracterizam a vida citadina, aspectos que em nada contribuem para longas esperanças de vida.
Porém, as agruras urbanas não parecem demovê-los. A maior parte veio para ficar, estando constantemente a ver como poderá tirar melhor partido dos diferentes habitats das urbes, mesmo quando escasseiam os espaços verdes e os refúgios nas edificações modernas. O exemplo mais notório é o dos peneireiros: embora estivessem habituados a fazer as suas posturas em rochedos e falésias, rapidamente descobriram que os terraços, varandas e parapeitos dos grandes edifícios urbanos são uma excelente alternativa. Indiferentes ao bulício citadino, tornaram-se uma presença habitual nos céus de várias cidades, com destaque para Lisboa, onde são relativamente comuns.
Jardins e parques públicos são hoje importantes reservatórios de vida selvagem. Além de alindarem com a sua presença a frieza arquitectónica das cidades, alguns dos bichos bravos que aí vivem contribuem, com a sua acção polinizadora (é o caso de muitos insectos, como as abelhas e borboletas), para colorir os campos e jardins. Outros, livram-nos da presença incómoda de ratos, pombos e pardais (consumidos essencialmente por aves de rapina) e insectos (aniquilados principalmente por morcegos, passeriformes, répteis e anfíbios), evitando que se tornem pragas incontroláveis. Portanto, não nos podemos esquecer de que também nas cidades as relações predador-presa, em que as diferentes populações exercem controlo umas sobre as outras, contribuem para o equilíbrio dinâmico e sustentável do ecossistema.
Com a época estival a convidar para longos e refrescantes passeios nos parques e jardins citadinos (em alguns, até já existem painéis informativos que alertam os utilizadores para a diversidade da fauna e flora aí existentes), mantenha-se atento, pois nunca se sabe quando poderá ser surpreendido por um dos muitos bichos que fazem parte da selva urbana. O melhor é ter sempre a câmara fotográfica à mão.
J.N.
SUPER 158 - Junho 2011
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