Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

A geologia, os geólogos e os seus métodos interação de sistemas

Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

O passo em falso de Stephen Jay Gould

Artigo põe em causa ensaio do célebre especialista em evolução norte-americano sobre como preconceitos afectam a ciência.

Stephen Jay Gould, o famoso cientista que se distinguiu tanto pelo estudo da evolução como pela sua defesa frente aos ataques da direita fundamentalista americana, terá sido vítima dos preconceitos que ele próprio denunciou num célebre artigo na Science e num ainda mais célebre ensaio, no livro A Falsa Medida do Homem (Quasi).
Tudo isto tem a ver com um cientista do século XIX, Samuel Morton, que reuniu uma colecção única de 1000 crânios, a inteligência e o racismo. E, claro, a integridade científica.
Gould, que morreu em 2002, questionou a integridade científica de Morton, acusando-o de ter, subtilmente - inconscientemente -, manipulado as medições que fez da capacidade craniana dos homens brancos para demonstrar que estes seriam os mais inteligentes. Isto para demonstrar que a raça branca - e o seu expoente, o homem branco - era a superior. A seguir vinham os asiáticos, os índios americanos e, no fim, os africanos.
Na altura em que Morton fez as suas experiências (a década de 1830, ainda antes da publicação de A Origem das Espécies por Charles Darwin, em 1859), quem era contra a abolição da escravatura defendia que a Humanidade não era una, mas antes que cada raça tinha sido criada em momentos distintos por Deus.
Mas um artigo publicado este mês na revista científica Public Library of Science - Biology (PLOS), acaba por pôr também em causa a integridade científica de Stephen Jay Gould - não preto no branco, mas é o que se pode aferir das conclusões dos cientistas que reconstituíram as experiências de Morton e chegaram à conclusão de que ele não terá manipulado, nem inconscientemente, as suas medições da capacidade craniana, feitas com sementes de mostarda, como dizia Gould.
E, pelo contrário, encontram indícios de que Gould é que terá sido vítima dos seus preconceitos - ou desejo de demonstrar como o racismo não tem bases científicas -, o que o levou a tratar os dados de uma forma discutível. Não o acusam de fraude no artigo, mas em entrevistas dadas a propósito do seu trabalho alguns membros da equipa têm cruzado essa linha vermelha.

Anotações de Darwin divulgadas na internet

Biodiversity Heritage Library vai dar a conhecer acervo pessoal do britânico

Um projecto que, entre outras instituições, envolve a Biblioteca da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, começou a digitalizar anotações de livros da biblioteca pessoal de Charles Darwin.
A primeira fase do trabalho foi finalizada e qualquer pessoa pode aceder pela internet os 330 livros mais “rabiscados” do naturalista britânico, através do site da Biodiversity Heritage Library .
O objectivo do projecto é mostrar o que Darwin pensava de outros autores. "Foi dada muita atenção aos seus manuscritos e correspondências, mas a sua biblioteca nunca teve a atenção que merecia", afirmou a bibliotecária Anne Jarvis, da Universidade de Cambridge.
O sistema de pesquisa do site permite que o utilizador encontre documentos por títulos ou palavras-chave, o que torna a procura muito mais facilitada.
Os mentores do projecto pretendem colocar na rede todas as páginas dos 1480 livros do acervo pessoal de Darwin, 748 dos quais contêm anotações pessoais.
Este projecto surge na sequência de outro que começou em 2008, quando a Universidade de Cambridge anunciou que digitalizaria vinte mil papéis relacionados com a vida de Darwin e os seus estudos. A universidade pretendia assim criar um banco de informações que estaria à disposição do público pela internet e que apresentaria, entre outras curiosidades, receitas da sua mulher, Emma, e cartas que revelam momentos desconhecidos da vida de Darwin.

Fonte: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=49774&op=all

Abelhas são pessimistas

Uma abelha não tem como expressar pessimismo em palavras. Não dá para ir lá e perguntar “ei, abelha, você acha que esse copo está meio cheio ou meio vazio?”. Mas em ações, pode.
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, treinou algumas a associar um cheiro específico a uma recompensa legal, doce, e outro a uma recompensa ruim, amarga. Então, para deixá-las traumatizadas, sacudiram as colméias onde metade delas estava, simulando o ataque de um predador.
A ideia era observar se, assim como uma pessoa que sofre de depressão, as abelhas sacudidas encarariam um novo estímulo, neutro e ambíguo, como positivo ou negativo.
De fato, elas continuaram se interessando pelo primeiro cheiro, mesmo após sofrerem o suposto ataque. Mas, quando exposta ao novo aroma, desconhecido, a maioria delas ficou relutante em se aproximar. Além disso, análises posteriores feitas nos cérebros das abelhas sacudidas mostraram níveis alterados de dopamina, serotonina e octopamina, três neutransmissores potencialmente ligados à depressão.
Ou seja, elas agiram como se fossem pessimistas, e seus cérebros deram os mesmos sinais.
Segundo os cientistas, isso pode significar que as abelhas têm, em algum nível, sentimentos. É a primeira vez que um estudo descobre sinais de emoções em animais invertebrados.
Então, seja legal. Se alguma abelha aparecer por aí, não saia correndo, não bata nela com o jornal. Você pode partir o coração da pobrezinha. Vai saber.

Thiago Perin

A selva urbana

As cidades são o lar de inúmeros animais bravios

Se pedir a alguém que diga nomes de bichos citadinos, ouvirá decerto falar em cães, gatos, pombos, gaivotas e pardais. Porém, apesar de as urbes serem ambientes artificiais criados pelo homem, são inúmeros os animais selvagens que também se tornaram “urbanos”. O biólogo Jorge Nunes mostra-nos alguns dos que podemos observar nas principais cidades portuguesas. Fique de olho nos seus vizinhos bravios.
Lembro-me bem da primeira vez que visitei a capital britânica, já lá vão muitos anos, e do dia deslumbrante que passei a descobrir os recantos encantados do Museu de História Natural. Mas, curiosamente, o que recordo com maior emoção da semana passada em Inglaterra foram os passeios a pé pelos jardins e parques públicos de Londres e Oxford.
Sempre soube que havia cães, gatos e pombos nas cidades (por vezes, de tão comuns, já nem reparamos neles), mas as caminhadas pelos magníficos jardins ingleses permitiram-me descobrir, para meu grande espanto, que também aí podiam encontrar-se animais selvagens. E, evidentemente, não me refiro aos que estão confinados aos jardins zoológicos!
Foi no coração da metrópole mais populosa da União Europeia (quem diria?), com quase tantos habitantes como a nação portuguesa, que observei pela primeira vez, e sem necessidade de binóculos, corvos, gralhas, gansos selvagens, patos bravos de diferentes espécies, esquilos e chapins que vinham comer às mãos dos transeuntes, e até veados e gamos que se passeavam livremente pelos relvados, bosques e jardins. Também me falaram das raposas, que existiam (e ainda existem) aos milhares nos jardins londrinos, mas os seus hábitos nocturnos impediram-me de as lobrigar, tendo acabado por conhecê-las anos mais tarde através de um documentário da BBC.
O curioso dessas minhas deambulações urbanas é que pude observar mais bichos silvestres nos jardins públicos britânicos do que em dezenas de saídas de campo que havia feito a algumas das principais áreas protegidas portuguesas.
Após outras viagens (reais e virtuais, através de filmes e documentários) por diversos países dos cinco continentes, acabei por perceber que a experiência vivida em Londres, afinal, poderia ter acontecido em qualquer outra cidade do mundo. Em todas elas se assiste à convivência (nem sempre salutar, diga-se), entre homens e bichos bravos.
A capital portuguesa não é excepção. Também ela acolhe animais selvagens que coabitam connosco sem que, muitas vezes, nos apercebamos da sua presença. É claro que não podemos encontrar os veados e gamos de Oxford, as raposas e os esquilos de Londres, os texugos de Copenhaga, os javalis de Berlim, os lobos de Brasov (Roménia), os falcões-peregrinos de Nova Iorque, os urubus-pretos de São Paulo, os macacos Hanuman do Rajastão (Índia) ou os ursos polares de Churchill (Canadá), mas Lisboa é igualmente uma urbe selvagem, bem como todas as outras cidades e vilas portuguesas.

Cidades selvagens

O surgimento das cidades, há cerca de seis mil anos, constituiu um salto considerável na história humana, tendo contribuído para que as populações se defendessem com mais facilidade, acentuassem relações sociais, partilhassem conhecimentos, utensílios e serviços e criassem cultura e ciência, que acabaram por tornar o ser humano civilizado. Curiosamente, os animais selvagens nunca estiveram muito longe. Afinal, quem consegue resistir ao apelo citadino?
Com o passar dos séculos, as primeiras cidades, essencialmente horizontais (de pedra, madeira e adobe), foram dando lugar a gigantescas construções de betão e aço, que parecem cair em direcção ao céu como as falésias se despenham sobre o mar. Mas nem isso demoveu a bicharada, que continuou, tal como as pessoas, a responder ao apelo das grandes metrópoles, mesmo quando o verde não passava de um ténue reflexo nas desmesuradas cortinas de vidro e metal.
Sendo as cidades ambientes artificiais criados pelo homem, de certa forma para fugir às agruras do campo e ao contacto insalubre com as ameaças naturais, é curioso verificar que elas nunca foram um domínio exclusivo dos seres humanos. Inúmeros bichos tornaram-se também eles “citadinos”, ocupando a estranha selva de betão, adaptando-se e prosperando com invejável sucesso. A sua sobrepopulação, em muitos casos, acabou por transformá-los em vizinhos incómodos e verdadeiras ameaças para a segurança e a saúde públicas, sobretudo como fonte de infecções e causa de acidentes rodoviários.