quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

IOGURTEGATE

A Danone acordou pagar 21 milhões de dólares no âmbito de acordo com os reguladores norte-americanos, por causa do "activia challenge", uma charlatanice pseudo-científica que consiste em convidar pessoas (jornalistas, de preferência) a comer iogurtes num hotel de luxo durante quinze dias e a olhar para as próprias fezes, para concluir que o activia "regula o trânsito intestinal" ou que cura uma treta qualquer que passa sozinha.
A Danone reconheceu ainda no âmbito do acordo que não há qualquer evidência que os iogurtes com pro-bióticos façam aquilo que eles dizem que fazem. Não sem acrescentar que "milhões de pessoas acreditam firmemente nos benefícios para a saúde dos iogurtes da danone" e que lhes vão continuar a vender iogurtes.
Não sei quantos iogurtes são 21 milhões de dólares, mas dá-me ideia que isto não afecta o trânsito intestinal dos marketeers da Danone.

David Marçal
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/iogurtegate.html

Biologia sintética não traz riscos, diz comissão de bioética dos EUA

Relatório está a gerar polémica

A área nascente da biologia sintética, em que os cientistas criam novos organismos sintetizando e manipulando ADN, não coloca de momento grandes riscos, que exijam a imposição de nova regulação.
Quem o diz é a Comissão Presidencial para o Estudo de Temas de Bioética dos Estados Unidos, num relatório divulgado esta semana, que está já a gerar polémica — pois há quem não concorde com esta conclusão.
A comissão foi encarregue em Maio de estudar a questão por Barack Obama, após a publicação pela equipa coordenada pelo cientista Craig Venter, na Science, de um artigo em que dava conta de que se tinha começado a multiplicar em laboratório a bactéria que tinham criado, com uma receita de ADN que não existe na natureza.
A auto-regulação, pelo menos por ora, é suficiente, concluiu a comissão. Os peritos consideraram mesmo “imprudente” declarar uma moratória sobre a biologia sintética até se poder determinar se existem de facto riscos. Recomendam é “um sistema contínuo de vigilância prudente que monitorize de forma cuidadosa, identifique e mitigue riscos potenciais e reais” (ver http://www.bioethics.gov/).
Craig Venter louvou as conclusões, considerando-as “sábias e cuidadosas”, em declarações ao New York Times. “Vão garantir que esta área nova possa florescer de uma forma positiva.”
Mas as conclusões, emitidas quinta-feira, estão já sob fogo. Um grupo de 58 organizações — ambientais, religiosas e outros, entre os quais os Amigos da Terra ou o Centro Internacional para a Avaliação da Tecnologia — enviou uma carta de protesto à comissão.
Dizem que o relatório tem falhas graves porque não avaliou de forma adequada os riscos ambientais de os organismos sintéticos poderem entrar em contacto com a natureza (ver http:/www.etcgroup.org/en/node/5244) e insistem numa moratória, até serem melhor compreendidos os riscos que representam.

Clara Barata
http://www.publico.pt/Ciências/biologia-sintetica-nao-traz-riscos-diz-comissao-de-bioetica-dos-eua_1471496

Impactos das espécies invasoras demoram décadas a ser sentidos

Os animais e as plantas exóticas só se revelam como espécies invasoras prejudiciais décadas depois de terem sido introduzidos, alerta um estudo europeu. Em Portugal, a erva-das-pampas, planta ornamental originária da América Latina, espalhou-se de Norte a Sul nos últimos 15 anos.
As espécies exóticas invasoras, afastadas dos seus predadores naturais nos locais onde são nativas, são um problema que custa todos os anos à Europa 12 mil milhões de euros. Mas talvez a sua real magnitude só venha a ser conhecida várias décadas depois, alertou este estudo que comparou os efeitos de várias espécies em 28 países europeus para identificar quais poderão vir a ser nocivas.
“As sementes de futuros problemas já foram lançadas”, diz o estudo, publicado ontem na revista norte-americana “Proceedings of the National Academy of Sciences”.
As aves e os insectos são os mais rápidos a instalarem-se nos novos habitats, muito ajudados pela sua mobilidade. Outros demoram muito mais tempo até atingirem populações que causem estragos.
Mas Elisabete Marchante, investigadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra lembra que as plantas também têm uma grande capacidade de dispersão. A erva das pampas, espécie que ainda não é oficialmente considerada invasora, é um exemplo. Esta planta com usos ornamentais “tem sementes muito leves que se dispersam muito rapidamente” e hoje pode ser encontrada “do Algarve ao Minho”, contou ao PÚBLICO. Nos últimos dez a 15 anos, a planta – associadas a ecossistemas dunares mas que se encontra em áreas perturbadas como as bermas das auto-estradas - espalhou-se pelo país e, se ainda não faz parte da lista de espécies não indígenas da legislação actual, de 1999, poderá vir a ser integrada, acredita a investigadora. “Já existia em Portugal há muitos anos mas foi nos últimos 15 que aumentou a sua dispersão”. Na revisão da legislação de 1999 (Decreto-lei 565/1999, 21 de Dezembro), que lista 29 espécies de plantas, a erva das pampas poderá ser uma nova entrada.
“Devíamos fazer mais sobre este problema agora”, disse Stefan Dullinger, da Universidade de Viena, Áustria, e um dos autores do estudo que juntou cientistas neozelandeses, checos, alemães, suíços, espanhóis, italianos e franceses. “Caso contrário, as coisas podem piorar muito em relação ao que existia há umas décadas atrás.”
O estudo recomenda que a Europa deveria controlar animais e plantas que ainda não estão a causar danos mas que se sabe que são invasoras em outros habitats.
As alterações climáticas poderão agravar o problema. “Temperaturas mais elevadas poderão ajudar a espalhar as espécies invasoras que agora estão limitadas pelo clima”, lembrou Dullinger.

Helena Geraldes
http://ecosfera.publico.pt/biodiversidade/Details/impactos-das-especies-invasoras-demoram-decadas-a-ser-sentidos_1471999

Estudo mostra como é possível salvar ursos polares cortando nas emissões de CO2

Se o gelo que cobre o Árctico desaparecer, por baixo está sobretudo água. E como os ursos polares não conseguem andar sobre a água, percebe-se por que é o aquecimento global, que faz derreter os gelos do Árctico, pode representar o seu fim. Previa-se que em meados do século não sobrevivessem mais do que 7000 destes animais que representam o próprio Árctico. Agora um novo estudo diz que não estão condenados a desaparecer assim — mas só se as emissões de gases com efeito de estufa forem muito reduzidas nos próximos anos.
Não é por acaso que o nome científico dos ursos polares é "Ursus maritimus". Dependem das plataformas de gelo para chegarem às suas presas (focas) e, se o mar não estiver coberto de gelo tempo suficiente, eles não se conseguem alimentar bem e fazer reservas para os meses de Verão. Os efeitos do aquecimento global — sentido com mais intensidade no Pólo Norte, que é uma espécie de ar condicionado do planeta — tem tornado os ursos polares mais pequenos, e feito com que a sua saúde sofra e os seus números se tenham reduzido.
Foi assim que um estudo dos serviços geológicos dos Estados Unidos apontou, em 2007, para que a actual população de 22 mil ursos polares se tivesse reduzido em dois terços em meados do século.
Os modelos computadorizados usados para prever isso — simulando como o clima evoluía e, com ele, os ecossistemas do Árctico — apontavam para um ponto de não retorno, o chamado "tipping point": um momento a partir do qual as temperaturas, cada vez mais altas, impedissem que os gelos voltassem a formar-se como antes.

Não há "tipping point" se...

O que vem dizer o novo estudo, que tem honras de capa na edição de quinta-feira da revista científica "Nature", é que não existem esses momentos em que tudo muda — mas só se ocorrer uma redução dramática das emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás com efeito de estufa. O primeiro autor é Steven Amstrup, um investigador reformado da US Geological Survey, e membro da organização Polar Bears International, no Montana, que fez parte da equipa de 2007.
Os modelos matemáticos que a sua equipa utilizou agora exigem uma redução drástica das emissões, e que ela ocorra em breve, de forma a que a quantidade de CO2 na atmosfera estabilize em 450 partes por milhão até ao final do século. Mas hoje, os níveis são de 388 partes por milhão e espera-se que o CO2 atinja — ou supere — a concentração de 700 partes por milhão na atmosfera até ao fim do século XXI.
É portanto uma aposta num cenário optimista a que propõe a equipa de Amstrup. Mas apresenta também argumentos científicos para demonstrar que há motivos para ter optimismo.
Mostram que mais habitat seria poupado se fossem reduzidas as emissões de gases com efeito de estufa. E nessas condições os ursos polares poderiam persistir “em números muito maiores e em mais áreas” do que era contemplado no estudo de 2007. Concluiu também que não é inevitável haver um ponto de não retorno a partir do qual os gelos deixem de ser suficientemente vastos e sólidos para que os ursos polares possam caçar neles.
A nova análise levou em conta também a recuperação das camadas de gelo após 2007 — o ano em que a cobertura do Árctico atingiu o ponto mais baixo desde 1979, ou seja, desde que se fazem registos por satélite.
O estudo de 2007 levou os EUA a classificar no ano seguinte os ursos polares como uma espécie ameaçada — uma medida reclamada pelos ambientalistas há muitos anos, porque alguns habitats destes animais no Alasca são cobiçados por petrolíferas. No mês passado, foi classificada como “habitat crítico” uma área de 484.734 quilómetros quadrados, 95 por cento dos quais no mar, mas perto da costa, em áreas que podem ter grandes depósitos de petróleo.
E este novo estudo, o que pode fazer? “São provas científicas de que há esperança”, disse Steve Amstrup, numa conferência antes da publicação do estudo. “Se as pessoas pensarem que não há nada a fazer, não farão nada. Mas nós demonstrámos que é possível conservar os ursos polares.”

A ameaça dos "pizzlies"

Mas as ameaças aos gigantes do Árctico multiplicam-se neste mundo cada vez mais quente. No mesmo número da "Nature" fala-se de outra, a dos "pizzlies": animais que são cruzamentos de ursos polares com ursos pardos ("grizzlies"), que têm o pêlo branco com manchas escuras.
O recuo do território dos animais adaptados ao Árctico — como os ursos polares — favorece o cruzamento com espécies de áreas mais a sul, como o grizzlies. Isto tenderá a levar ao desaparecimento dos animais do Árctico, defende a equipa de Brendan Kelly, da agência para os oceanos e a atmosfera (NOAA). O primeiro "pizzly" foi detectado em 2006 e o mesmo fenómeno de cruzamento está a acontecer com outros animais, como as baleias.

Clara Barata
http://ecosfera.publico.pt/biodiversidade/Details/estudo-mostra-como-e-possivel-salvar-ursos-polares-cortando-nas-emissoes-de-co2_1471166